Ao longo de nossa passagem por aqui não há quem escape dos infortúnios que nos tornam mais conscientes, por mais paradoxal que isso possa parecer. De uma forma ou outra, são momentos que nos levam à reflexão, ainda que temporariamente. Eis que o tempo tudo – ou quase tudo – apaga. Armazenadas nos recônditos de nosso ser, imagens e sentimentos lá ficam guardadas como marcas indeléveis que contribuem para aguçar nossa percepção no enfrentamento dos propósitos do dia-a-dia.

Aguardadas ou simplesmente surpreendentes, perdas são inerentes à vida e contribuem para nosso crescimento,  desde que devidamente assimiladas – o que não é fácil – dada a propensão inata de nos sentirmos vítimas em situações estressantes.

Não apenas as mais inesperadas perdas nos desequilibram  deixando-nos perplexos e, não raro, perseguindo respostas que realmente não existem. As menos significativas como muitas das  perdas materiais, de um emprego ou financeiras podem trazer abalo momentâneo, mas quase sempre com possibilidades de recuperação.

Parece sensato argumentar que vivemos diariamente em dois mundos reais e distintos. O da rotina, dos projetos, das realizações, e o mundo do inesperado. Neste ponto, você certamente poderá contra-argumentar afirmando ser este um pensamento óbvio. E o é! A diferença reside na realidade entre sermos protagonistas, coadjuvantes ou meros expectadores de momentos traumáticos.

Informados pela televisão ou internet sobre acidentes, catástrofes e violência – vista ou lida a notícia – somos imediatamente levados ao foco seguinte, ficando aquela, real e dolorida para tantos, a ser vivida apenas pelos atingidos diretamente. A sensação de blindagem, dada nossa capacidade de autopreservação emocional, termina por nos isentar de qualquer responsabilidade.

Muitas de nossas atitudes diante do corriqueiro da vida, apesar de conscientes são, vez por outra, afetadas por fatos imprevisíveis que podem transformar nossos destinos em um piscar de olhos. Com sorte e humildade percebemos, apenas então, que não somos magnânimos e vivemos permanentemente em dois mundos paralelos. Situações inimagináveis surgem de repente, sem que se saiba de onde nem porque, podendo nos deixar perplexos diante de uma realidade que até então desconhecíamos.

Alertados, percebemos que alegria, sofrimento e finitude existem para tudo e para todos. As experiências vividas nos oferecem a oportunidade de passarmos a ser mais compreensivos, condescendentes e solidários com pessoas e situações.

Até frente a nós mesmos.