“Na verdade, quem luta apenas na esperança de bens materiais não colhe nada que valha a pena viver. Que são cem anos da história da máquina em face dos duzentos mil anos da história do homem? Ainda nem acabamos de nos instalar nesta paisagem de minas e centrais elétricas. Ainda nem nos sentimos moradores desta casa nova que nem sequer acabamos de construir. Tudo mudou tão depressa em volta de nós: relações humanas, condições de trabalho, costumes… Para aprender o mundo de hoje usamos uma linguagem que foi feita para o mundo de ontem. E a vida do passado parece corresponder melhor que a nossa natureza apenas porque corresponde melhor à nossa linguagem.”

Estas palavras foram escritas, em 1939, por um genial escritor-aviador ou, se preferir, aviador-escritor, em seu livro “Terra dos Homens”, laureado com o Grande Prêmio de Romance da Academia Francesa. O autor, da também genial obra “O Pequeno Príncipe”, Antoine de Saint-Exupéry, deixou-nos um legado de sabedoria e profunda percepção da natureza humana. Muito além de seu tempo, enxergava o mundo e as pessoas sob a ótica de quem, voando com sua precária máquina em áreas inóspitas e climas inclementes, descobria, em tempos idos, rotas capazes de aproximar as pessoas ainda que pela via de correspondências postais. Repórter da guerra civil espanhola e, mais tarde, piloto de reconhecimento durante a segunda guerra mundial, desapareceu durante uma missão em julho de 1944. Deixou-nos para sempre, juntamente com sua máquina; mas deixou-nos também – e a nos lembrar através de seus livros – um legado que colocam o homem e a condição humana em primeiro lugar.

Nestes tempos de violência global, impingida até por motivos os mais mesquinhos, a insensibilidade de muitos espalhados pelo planeta e não poucos em nosso próprio quintal escancaram as atrocidades de guerras formais ou informais que confrontam, até, irmãos étnicos.

Estaria Saint-Exupéry equivocado em sua visão do mundo e das pessoas com as quais convivia – no ar, em terra firme e desertos – em continentes distintos como Europa, América do Sul, África? Desde tempos imemoriais o homem se comporta ambiguamente com selvageria e civilidade. Ainda estamos distantes, creio eu, do tempo em que as criaturas, todas, haverão de se irmanar visando a sobrevivência da espécie. Será pegar ou largar. O “eu” e o “tu” se não derem lugar ao “nós” abreviarão a vida dos terráqueos por aqui.

Como o vaidoso e orgulhoso que se curva diante do chamamento da morte depois de uma sombria ameaça de infarto, revendo seus anseios e prioridades, todos, sem exceção, terão que optar entre a teimosia e a razão quando chegado o momento.