Na “próxima” quero nascer cachorro. Mas quero, também, ter um dono, ou dona, que cuide de mim da mesma forma que o Nicky é cuidado 24 horas por dia. O dito não é nosso, eis que veio emprestado para resolver um problema doméstico-familiar, e tem tido direito a todos os direitos que qualquer ser humano deveria ter. Bem abrigado, nutrido de acordo, assistido em sua saúde por profissional competente, responsável e disponível, segurança absoluta, transporte de qualidade. É o retorno do investimento que Nicky tem feito ao longo de sua longa vida – desinteressadamente – ou seja, fidelidade, companheirismo, troca de atenções e muito carinho.

Aos onze anos se comporta disciplinadamente não enchendo o saco de vizinhos com latidos irritantes por qualquer motivo, que só fazem perturbar o sossego alheio. A não ser que rojões, morteiros e similares sejam despejados no ar; aí o bicho pega. Como pega, também, quando as trovoadas chegam fortes e impiedosas. Aliás, quem tem bichos sabe que o fenômeno climático é percebido pelos canídeos segundos antes de explodir confirmando sua percepção excepcional. E somos nós, bípedes dotados de alguma inteligência, alguns, os considerados perceptivos…

Como no caso de seres humanos, são muitos os cães que não estão nem aí para barulhos infernais que colaboram para o ensurdecimento da população. Muitos (cães…) tem apenas medo ficando assustados com os estrondos. Outros, como o Nicky, começam a latir sem parar como se quisessem coibir os excessos da natureza no grito. Sem acordo! Mas como somos – ou tentamos ser – eu e minha mulher, pessoas responsáveis preocupadas com o bem estar do próximo, procurando respeitar, inclusive, seu direito ao silêncio e ao sossego, colocamos Nicky para dormir dentro de casa em lugar protegido, e assim evitar quaisquer desconfortos para nossos vizinhos. Quanto ao nosso, sem escapatória…

Mas a vida é assim mesmo. O que realmente me entristece é que muitos humanos – em situações idênticas ou parecidas, independentemente dos motivos – não se colocam no lugar daqueles que têm direito, também, ao sagrado silêncio que a ninguém perturba. Nicky, em muitos de seus ensinamentos, tem nos colocado à prova da compreensão e paciência. Não tem sido fácil o aprendizado, mas para quem tanto recebe, o preço a pagar é uma pechincha.

As chuvas estão chegando, as trovoadas também. Nicky olhando agora nos meus olhos como a se desculpar – olhar lânguido –, irracionalmente parece dizer: “guenta a mão aí”.

Au, Au, Au!