Quando garoto, moleque, e como qualquer um naquela idade, vira-e-mexe lá estava eu aprontando. Nada grave, mas para os padrões da época – quando crianças e jovens eram educados com rigor – umas palmadas até certa idade caiam bem, pelas travessuras cometidas. Mais tarde, já querendo fazer a barba, vieram os sermões e os cortes de mesada (que já não era lá essas coisas…)

Os tempos eram outros. Tempos em que se crescia, amadurecia mais lentamente e sem grandes percalços; tempos em que a preocupação maior dos pais era com o cigarro, o horário tardio – 1 da matina e olhe lá – para chegar em casa depois das festinhas (arrasta-pés), atrasar para o almoço vindo da praia, matar aula ou ficar “preso” depois delas por indisciplina, sumir por horas andando de bicicleta até em outros bairros, pegar e saltar do bonde andando, ficar namorando no portão da casa da namorada perdendo a hora. Quem viveu aqueles tempos há de acrescentar muito mais a esta relação.

Teria sido mais fácil educar os filhos então? Não saberia dizer. Eles continuaram tendo os seus e a fila andando. Olhando pelo retrovisor assisto a uma paisagem diferente, com cenários que em nada lembram aqueles das escolas com professores e alunos disciplinados, “cuba libre” sem capacidade de deixar alguém alterado nas festinhas em casa, namorar no escurinho do cinema – sempre de olho no “lanterninha” – depois de ter marcado encontro na porta do dito. A lista de boas recordações é infindável. Mas há que se considerar que naqueles tempos éramos menos de 90 milhões neste país. Hoje, somos mais de 210. Explosão demográfica com consequências, não apenas por aqui!

Saudosismo? Definitivamente, não! E por que não? Porque é meu entendimento que as descobertas tecnológicas e o crescimento demográfico fora de controle nos últimos 50 anos foram maiores que em todo período de existência da humanidade. Houve uma aceleração de tudo que se possa imaginar, sem precedentes, em todos os sentidos, o que levou os habitantes deste planeta a terem dificuldade de assimilar todas as inovações levando o ser humano a uma indigestão de informações e fazendo-os sofrer de verdadeira concussão de hábitos e costumes. Como consequência, durante a jornada, tem-se passado – sem escalas – da infância à fase adulta, queimando etapas que estão, agora, a nos fazer falta. Não temos dado tempo suficiente ao tempo. Assim, continuamos sem desfrutar, ainda, de todas as benesses trazidas pelo desenvolvimento que, em tese, deverá levar o ser humano a viver mais e melhor sob todos os aspectos.

Mas para algumas gerações à frente, quem sabe, o bilhete talvez possa estar premiado.