Vivemos dentro de verdadeira aglomeração. Falta-nos espaço para quase tudo, em aeroportos, aviões, ônibus, ruas, restaurantes, cinemas, bares, praias, postos de saúde e afins. O desconforto crescente e o estresse que o acompanha têm transformado nossas vidas em extenuante sacrifício. A tecnologia que deveria propiciar uma maior aproximação entre as pessoas a afasta do contato olho no olho.

Para muitos, o convívio diário exige um exercício de paciência e compreensão para fazer frente à realidade do dia-a-dia. Corremos sempre, sem tempo de ter tempo para nós mesmos, buscando válvulas de alívio no consumo, na bebida e, não poucos, nas drogas. A satisfação com metas e desejos atingidos é efêmera, pois  eis que uma vez conquistadas se tornam página virada rapidamente, desnudando-nos novamente e levando-nos a buscar mais.

A arte de conversar, sim, conversar é uma arte, foi saindo de moda, mudando o perfil dos encontros entre amigos que raramente se reúnem em ambientes mais reservados voltados exclusivamente para a troca de ideias, abordagem de assuntos de interesse comum, “estar pelo simples prazer de estar”. Situações que dispensam como pré-requisito o som que torna as conversas inaudíveis, o copo vazio reabastecido num piscar de olhos, uma atmosfera especial, diferenciada.

Fico com a impressão que perdemos a capacidade de pura e simplesmente desfrutarmos da presença do outro, nos interessarmos mais pelo outro que por nós mesmos, de estarmos ali inteiros sem necessidade de contar com agentes estimulantes de qualquer natureza. Impressiona-me, ainda, que muitas pessoas enquanto na companhia de outras dediquem mais atenção aos seus celulares que às conversas correndo em volta.

A introspecção, a meu ver tão importante para nosso equilíbrio e saúde, vem sendo perturbada pela ausência crescente do silêncio. Ler um livro, ouvir boa música, ficar consigo mesmo em ambientes tranquilos torna-se cada vez mais difícil.

As máquinas e os sistemas tecnológicos vêm ocupando espaços cada vez maiores em nossas vidas substituindo tarefas antes executadas pelo homem, poupando-lhe esforços, abrindo espaços nem sempre bem aproveitados. A velocidade impingida ao nosso dia-a-dia retira-nos o prazer e o sabor do desfrutar. Parece que fomos jogados dentro de uma centrífuga onde o tempo livre criado pela tecnologia, tempo a ser desfrutado, se perde nos espaço.

Quanto a mim, sem pretender ser poético, quero ter a liberdade de olhar pela janela e passear pela rua ouvindo os sons dos passarinhos, ouvir minha voz interior, ponderar sobre o que me aprouver, sem restrições.