Portas existem para manter espaços reclusos, impedir passagens, criar obstáculos a acessos protegidos. Como nas mais variadas situações do dia-a-dia, barreiras criadas por nós mesmos, conscientemente ou não, impedem uma convivência mais pacífica e harmoniosa com tudo e todos – para atravessarmos as rotas que se apresentam.

A propósito, conheci um arquiteto há alguns anos, em Monte Verde, MG, que estava construindo sua casa, projetada por ele mesmo dentro de padrões pouco convencionais. Todos os cômodos da residência, de dois andares, eram interligados sem quaisquer bloqueios físicos, leia-se portas.  Construída em tijolo comum de construção, que normalmente viria a receber reboco para acabamento, sua aparência era a de uma obra inacabada. Até mesmo de ilusória aparência desleixada. Com materiais e sobras das redondezas ergueu a moradia de seus sonhos que representaria a liberdade de viver em liberdade ainda mais em um lugar como aquele. Pelo menos à época, décadas atrás. As janelas, ou melhor, os vãos que deveriam receber os caixilhos e janelas de madeira tradicionais, foram substituídas por juta pesada que permitiam em tempos sem chuvas o livre acesso de pássaros, ar puro e sol inclusive por um ponto zenital, contato direto com a magia das montanhas.

Aldo, esse seu nome, artista nato, formação em arquitetura, vivendo de seus projetos de viés ecológico, enxergava a vida por um ângulo que sempre nos lembrava de sua grande escola – a que tudo lhe ensinava: a natureza e sua convivência com animais e plantas. Até mesmo as horas dos seus dias eram ditadas pela posição do sol e relógio biológico. A mina d’água cristalina abastecia a caixa central por gravidade; esta por sua vez, alimentava através de canos de bambu o banheiro e a cozinha. O fogão a lenha se encarregava de cozinhar os alimentos e prover de água quente o chuveiro espartano que dava conta do recado até mesmo frente ao frio rigoroso dos invernos de lá.

Na contramão da história – já distante no tempo –, aquela figura especial, boa de papo, singela no conviver, balizou muitos de meus dias e forma de ver a vida dando ênfase e prioridade ao que é realmente importante. Aprendi que portas não precisariam ser fechadas nem trancadas estivéssemos nós mais próximos da natureza, observando o que ela nos ensina e fornece gratuitamente.

Utopia, direis vós. Mas como dizia o Barão de Itararé “da vida nada se leva a não ser a vida que a gente leva”. Uns com ai tudo: Ipod, Ipad, Iphone, e outros, como o velho Aldo, que já deve ter batido nos 90, se é que já não foi desta para melhor (na visão de alguns…), que curtiu tudo sem necessidade de curtidas outras.