Enquanto meio mundo se debruça sobre conflitos de toda ordem – bárbaros e contundentes muitos – a outra metade se envolve emocionadamente com os jogos da Copa do Mundo sendo realizados por aqui. O país recebeu milhares de visitantes-torcedores os quais, até onde se sabe via imprensa, têm se comportado civilizadamente com raras exceções. Claro está que os milhões de problemas e dificuldades enfrentadas pelos organizadores e investidores fora dos gramados não estão expostos à vista do público, que jamais virá a conhecer sequer metade deles. Há muito dinheiro correndo: bilhões – não de reais, mas de dólares – investidos nos negócios do futebol que aguardam por retorno compatível e devem ter suas marcas protegidas pelas “intempéries” invisíveis. Afinal, segundo estimativas oficiais dos mercadores da bola, cerca de três bilhões de espectadores mundo afora estarão “ligados” assistindo aos jogos e, natural e involuntariamente, sendo bombardeados por toda sorte de propaganda que corre atrás de seu rico dinheirinho na hora de consumir.

A cada 90 minutos, fato que se repete três vezes ao dia, por enquanto, as atenções de boa parte daqueles três bilhões de torcedores tem seus olhos fixos nas telas e telões dentro e fora de casa, aguardando para explodir a palavrinha mágica “gol”. Mas como na vida tudo é equilibrado – ainda que assim não pareça à primeira vista – ao final de cada jogo coexistem alegres e tristes, eufóricos e frustrados. Como unanimidade não existe, a não ser “burramente”, como se manifestava o saudoso e fanático torcedor do clube tricolor do Rio de Janeiro, jornalista e escritor Nelson Rodrigues, vitórias e derrotas são irmãs visitadas por aqueles apaixonados pelo mundo da bola.

São momentos de desprendimento e ansiedade em que boa parte das populações enterra no baú das despreocupações o salário que não chega até o fim do mês, a caquética situação econômica do país, a insegurança diária dentro e fora de casa (aqui por nossas plagas), o enfrentamento das estúpidas e imorais ações fratricidas ocorrendo em parte do Oriente e da Ásia por populações que tudo perderam tendo como pano de fundo guerras que se dizem religiosas.

Uma verdadeira comédia que a muitos ajuda a suportar a vida, com alegrias efêmeras de momentos como estes, da bola rolando.

Bola prá frente.