A partir da segunda metade do século XX a globalização ganhou corpo e se expandiu além das fronteiras da industrialização entre países. É o que se observa nesta Copa do Mundo, com boleiros jogando por seleções de países em que não nasceram. Apesar de a legislação de muitos deles (países) fixarem critérios limitativos à contratação de estrangeiros por clubes de suas Ligas, a verdade é que a naturalização de jogadores tem facilitado o drible das exigências governamentais. São os privilegiados a adquirirem dupla nacionalidade sem grandes dificuldades.

A integração cada vez mais estreita entre economias e sociedades vem alterando o perfil de países, corporações e produtos profundamente. A migração e o desenvolvimento tecnológico, aliados à visão mercantilista de empresas visando reduzir seus custos de produção e, por isso, optando por mão de obra barata em países em desenvolvimento, deram início à dança das cadeiras migratórias. Duas guerras mundiais, desde o inicio do século passado, contribuíram decisivamente para as profundas transformações geopolíticas alterando, consequentemente, as políticas de imigração estabelecidas.

A ONU divulgou, recentemente, que existem cerca de 52 milhões de refugiados em todo o mundo, quase metade delas crianças – 25 milhões – que tentam sobreviver em campos de refugiados com futuro incerto. Enormes contingentes têm sido obrigados a deixar suas casas permanecendo desalojadas em seus próprios países, como na Síria em guerra civil há três anos. Assistimos ainda e quase diariamente a migração de milhares de africanos que arriscam suas vidas, em fuga, viajando em embarcações precárias e superlotadas buscando uma vida de subsistência menos miserável na Europa, continente que já enfrenta problemas xenofóbicos.

Em um passado já remoto, pouco se conhecia sobre a realidade de outros povos. Hoje, a televisão nos mostra (quase) tudo. E a realidade a que assistimos é a de uma vergonhosa condescendência dos governos com um desequilíbrio social insuportável, com um sistema financeiro pervertido, que impunemente desvia recursos destinados à qualidade de vida para projetos de interesse exclusivamente político.

Contrastes cada vez mais marcantes estão a ensejar uma profunda reformulação no pensamento e ação contemporâneos. A migração crescente de milhões de pessoas em busca de melhores condições de vida em outros países reflete, simplesmente, que existe algo de desajustado na politica econômica mundial. Ela é, a meu ver, a mãe de todos os males.