Hora da lição de casaO Brasil é um país peculiar, cheio de contrastes, até por se apresentar ao mundo como um continente, em sua dimensão territorial. Muitos de seus estados são maiores que vários países do planeta, com clima diversificado e condições geoeconômicas profundamente distintas. A globalização desenfreada tem provocado um desequilíbrio entre os hemisférios ocidental e oriental tanto na área econômica como política. Por aqui, temos sofrido influências e impactos, mas não deixamos, também, de marcar nossa presença além-fronteiras e além-mar – em uma simbiose cultural pluralista.

Os campos da arquitetura, engenharia e medicina brasileiras são classificados mundialmente como AAA, referência usada por analistas e pesquisadores para avaliar a saúde das economias globais. No entanto, esta condição revela um dos mais clamorosos contrastes de nosso perfil geopolítico: a excelência reconhecida mundo afora e nossa realidade interna. Parece ser um paradoxo, falta de nexo, contradição, que, apesar da proeminência, o país tenha – segundo o governo – que importar médicos, enfrentar carência de engenheiros para atender ao mercado de trabalho e, vergonhosamente, não oferecer condições estruturais para cuidar – dignamente – da população desassistida pela saúde pública.

Estamos com dificuldade, enorme dificuldade, de fazer a lição de casa. Enquanto a maré da economia mundial nos era favorável, anos atrás, navegamos por uma rota equivocada que nos levou à dramática situação atual: contas públicas combalidas, déficit na balança comercial, inflação “inflada” e crescimento próximo do zero. O país está obrigado a recomeçar das cinzas como a enfrentar terra arrasada por conflito bélico.

Aguarda-se, com otimismo incontido, que – à nova “troika” econômica – o Executivo conceda independência de ação – sem qualquer interferência – visando à correção de rota. Inconcebível que nossa projeção usufrua, apenas, de reconhecimento externo. Mais que orgulho internacional o país carece de orgulho nacional. Os caminhos que levam a população a ter acesso à educação e saúde básica de qualidade, desenvolvimento compatível com seu potencial, solidez de sua economia, se desviam daqueles que levam à politicagem barata orquestrada por interesses corporativistas. A grandeza de uma nação é medida por aqueles atributos. O resto é mera consequência.

Este país merece fazer parte do mundo globalizado como protagonista; não como coadjuvante. Nosso cacife é tão forte quanto o de qualquer outro, mas é preciso protegê-lo da rapinagem, catapultando dentro da lei, os assaltantes dos cofres públicos.
Estejam eles onde estiverem!