Justiça cega, surda e mudaExercer a cidadania neste país não é tarefa fácil. Tenho ponderado em minha coluna no jornal que a abriga sobre o quadro político e econômico que atravessamos faz tempo. Reconheço que o assunto possa ser árido para número incerto de leitores. Mas como na famosa frase de Martin Luther King Jr.: “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”, calar-se e não se posicionar é ruim para a democracia e para os destinos do país. 

 Vivemos fatos cruciais que urge serem passados a limpo. Só a força da coletividade mais esclarecida, lida, formadora de opinião, pode desbravar a tentativa de colaborar para o aperfeiçoamento de nossas instituições. O estado letárgico ao qual já nos habituamos, de conformismo diante da insegurança nas ruas, assassinatos de inocentes e policiais como em guerra civil, descaso pela vida humana sem atendimento digno em hospitais, passividade diante de tanta corrupção em todas as instâncias, não mais nos estarrece.

 Noticiário da semana passada no jornal O Estado de S.Paulo revelou que “os executivos da Camargo Corrêa João Auler (presidente do Conselho de Administração), Dalton Avancini (presidente da construtora) e Eduardo Leite (vice-presidente) negociavam, em sigilo, suas delações premiadas com os investigadores da Lava Jato, em Curitiba, mas as tratativas de delação dos três réus retrocederam”.

 Curiosamente e por coincidência, à mesma época, o jornal Folha de S. Paulo noticiava que “o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo – chefe da Polícia Federal que investiga o chamado “Petrolão” e candidato a uma vaga no STF -, teve ao menos três encontros, só neste mês, com advogados que defendem empresas acusadas por investigadores da Operação Lava Jato de pagar propina para conquistar obras da Petrobras, como a UTC e a Camargo Corrêa”.

 Complementando o quadro, a resolução 74/2015 editada em tempo recorde pelo Tribunal de Contas da União – 48 horas antes do início do carnaval -regula a participação do TCU na negociação e na celebração de acordos de leniência entre empresas acusadas de corrupção e a União. “O TCU, que não faz parte do sistema que acompanha os acordos de leniência, vai agora tomar parte do processo.”

 Não é preciso ser causídico para saber que a oratória cativante ou o traquejo com a mídia produzem, também, resultados protelatórios em nosso ordenamento jurídico. Vozes já se levantam aqui e ali visando equilibrar – ou até mesmo desequilibrar – o fiel da balança da justiça brasileira.

 Justiça cega, surda e muda?