O mundo de cada umPerdas ao longo da vida são inevitáveis. Perdemos parentes, amigos, animais de estimação, bens, negócios e oportunidades. E ainda, por vezes, a autoestima em face de adversidades inesperadas ou o encanto por belos momentos desperdiçados. São privações e provações, pegando-nos de surpresa aqui e ali e não há quem delas escape de uma ou outra forma.

 Penso que durante os momentos favoráveis, com o vento soprando favor, céu de brigadeiro e mar de almirante, sequer nos damos conta da benção que sobre nós recai em tais situações. Vez por outra levamos uma chacoalhada ao constatarmos que alguém próximo ou famoso sofreu um infortúnio repentino nos levando a ponderar sobre a vida que nos leva. Mas a mente dispersa e esperta logo muda de estação, virando a página ou retendo no “arquivo morto” o que já é passado. E tocamos a vida em frente.

 Assistindo a um documentário pela tevê durante o fim de semana fiquei impressionado com o que vi e ouvi. Nenhuma novidade maior, mas depois de duas horas de assistir a uma intensa produção magnificamente elaborada, realisticamente colocada, uma realidade com a qual não convivemos balançou meus neurônios criando até, quem sabe, novas sinapses…

 Boa parte do mundo parece viver em um mundo da fantasia e outra no caldeirão de Dante. Estamos cientes, mas talvez pouco conscientes, da vida degradada enfrentada por milhões de seres humanos em países da África e áreas congeladas deste planeta. Enfrentamos uma crise hídrica no país fruto da irresponsabilidade de parcela da população – que apesar de todos os males vive em abundância, se comparada às de africanos perdidos na geografia – e (des) governos tão irresponsáveis quanto. Imagine-se sobreviver bebendo água poluída, buscá-la a quilômetros de distância em uma lata de 30 l, viver sem um mínimo de higiene com proliferação de micróbios mortais, sem pasto para alimentar animais e terra capaz de produzir alimentos para sua gente. Diuturnamente!

 Em contrapartida, nos Estados Unidos, fazendas abençoadas com fartura de água estão abrindo mão da produção para – acredite – vender a água para cidades em crescimento vertiginoso. Um bem herdado da natureza, gratuitamente, tornou-se uma “commodity” lucrativa para poucos agraciados.

 No conforto de minha casa e de minha vida, esforço-me para tomar consciência de que ao abrir uma torneira, a água corre; que ao abrir a geladeira, tem alimento; que ao apertar um botão na parede faz-se a luz; que ao sentir uma indisposição recorro à gaveta dos remédios que lá estão ou a um médico em um PS em caso emergencial. Tudo à disposição. Diuturnamente!

 Ninguém perde o que não tem! Se tiver, pode vir a perder! A ponderar!