Houve uma época em que neste país existia uma classe média mais “rica” que a atual. A noção de classe média varia de país para país – e até mesmo entre Economia de guerraregiões dentro do país – não devendo ser, portanto, comparada com qualquer outra.

 Cresci em meio a uma família considerada de classe média. Já tendo percorrido um longo trajeto no calendário e fazendo um retrospecto da “paisagem” desde então, imagens e sentimentos retornam à mente como lembranças que, inevitavelmente, servem de termo de comparação.

  As lembranças que guardo, como a Economia de guerrade um filme em série, são a de que ao final e após a segunda guerra mundial, ainda moleque de calça curta, os tempos eram outros, mais saudáveis, mais vividos. Sem qualquer saudosismo! Levantar-me as quatro da matina para entrar na fila da racionada carne na porta do açougue, ter as janelas de frente para o mar escurecidas para manter a cidade (Rio de Janeiro) “escondida” dos submarinos alemães à noite, viver sem luxos dando valor ao que tinha valor sem qualquer gana por supérfluos: assim era a vida. Aprendizado para minha educação e formação.

 Adolescente, os sapatos com sola de couro eram duráveis – e se os faziam duráveis com troca de sola inteira ou, ainda, “meia sola” para encarar anos à frente – camisas com colarinhos e punhos “puídos” revertidos, já que todo o resto se encontrava em perfeitas condições, calças e meias rasgadas “cerzidas” dando continuidade de vida às roupas em perfeitas condições de uso, sem qualquer frescura. Minha geração foi educada para valorizar o que se tinha, sem condições de dar ouvidos ao canto da sereia que começou a ecoar com o início da industrialização do país e americanização de hábitos e costumes importados de país rico por um imenso continente onde tudo estava por ser desbravado.

 O descartável foi chegando aos poucos enquanto a qualidade de vida – proporcionada pelo útil – partindo inexoravelmente. A tecnologia disponibilizada foi-nos tornando dela escravos, escravizados que estamos com pouco acesso à qualidade de alimentos saudáveis, ar puro, água potável, direito ao silêncio, assistência médica humanizada, escolaridade dos filhos, hoje depauperada.

 Em tempos de crise econômica como a ora sendo enfrentada, conscientização de que economia familiar, de guerra, funciona, faria bem aos nossos bolsos, à educação da família, a toda a sociedade que não mais pode se espelhar naquela dos carrões, das grifes, da alimentação industrializada, do supérfluo, da ostentação bancada pelo marketing impiedoso.

 Talvez tenha chegado o momento de redefinirmos o que seja qualidade de vida. Se o cachimbo faz a boca torta, joguemos fora o cachimbo.