Afinal, não vivemos o hoje no futuroNossa cultura ocidental leva-nos, a cada entrada em um Ano Novo, fazer votos e promessas diversas. Muitas delas, repetindo as de anos anteriores, mas que o tempo se encarregou de ir apagando aos poucos. Sendo generoso, acredito que são raros os que conseguem atingir seus propósitos com o decorrer dos dias. Afinal, o dia-a-dia corrido e a realidade enfrentada passadas as “festas” nem sempre colaboram para tornar factíveis as boas intenções.

A perda de um amigo aguerrido, que nos deixou na semana passada, levou-me a, mais uma vez, refletir sobre a efemeridade de tudo. Possuímos a tendência de contemplar a vida como se fossemos eternos. Cada um usufruindo a seu modo – a depender da visão que dela se tem – de tudo que ela pode nos proporcionar. Mas inevitável, em nosso caminhar, percorrer estradas construídas com desvios, interseções e bloqueios não previstos nos mapas da existência. Imaginamos poder controlar fatores ditos previsíveis, mas que por obra do destino podem nos surpreender em momentos os mais inesperados. E, aí, o baque!

À medida que os anos vão nos amadurecendo, nosso olhar e nosso sentir para tudo quanto existe e sempre existiu, alcançam uma nova perspectiva. Somos materialistas por natureza até atingirmos o ponto de inflexão da curva que nos leva a perceber que o horizonte não é uma linha imaginária finita. Existe, sempre, algo a mais, vivível apenas por aqueles que se permitem seguir em frente corrigindo rotas e expectativas.

Pondero se, ao invés de aguardarmos até as festas de fim de ano – quando tudo é apenas festa para muitos– não deveríamos considerar a possibilidade de fazer votos de intenções a cada dia, reflexivamente. Afinal, não vivemos o hoje no futuro. E mais: dificilmente nos conscientizamos, diariamente, de nossa finitude e tocamos nossa existência como se esta fora um moto perpétuo. É possível conjecturar que, mais conscientes, nossas prioridades de vida – revisadas a cada dia – possam ser redimensionadas tornando-nos mais aptos a desfrutá-la com absoluta isenção.   

Dois minutos de reflexão diária sobre o que você é e quem você é podem, quem sabe, iluminar seu caminho!

(Este texto está protegido pela Lei nº 9.610/98)