Charles ChaplinDurante minha infância e adolescência tive como diversão maior – e privilégio – assistir a filmes que deslumbraram mais de uma geração deixando para os adultos assuntos sérios e violentos – bem menos violentos aos que hoje presenciamos, por seguro. Puxando pela memória, recordo-me de alguns: Dumbo, Branca de Neve e os Sete Anões, Pinocchio, O Mágico de Oz, Zé Carioca, Alice no País das Maravilhas, entre tantos. Muitos sonhos.

Todas as gerações sempre possuíram momentos mágicos registrados durante sua passagem. No caso, e apesar de à época o mundo estar enfrentando transformações profundas em sua geografia – resultantes do fim da Segunda Guerra Mundial – e de a uma nova ordem econômica e política com a queda de impérios colonizadores na África e na Ásia.

As atrocidades cometidas por todos os lados, muitas vezes justificadas como “guerra é guerra”, não pareciam afetar de maneira incisiva nossas vidas então. Até pela distância dos acontecimentos, o que nos imunizava – de certa forma – contra as tragédias sofridas por milhões de seres humanos. Há que se considerar, por certo, que as informações, então, eram também enviadas por telégrafo e teletipos e sua assimilação se dava homeopaticamente. (Aliás, esse assunto “Evolução das Comunicações ao longo dos séculos” serviria de excelente material para uma aula de cultura geral nas escolas).  

Em momentos como os que vivemos atualmente – com a imprensa noticiando à exaustão – atrocidades no RJ e SP, diariamente, e crianças de todas as idades grudadas na TV ou tablets que tudo divulgam, fico a me questionar que tipo de “formação subliminar” essa turma está recebendo. Sem considerarmos os “games”, muitos também de natureza violenta, disponíveis livremente.

Dar asas a imaginação, sonhar que Papai Noel existe, aprender a dizer pápá e mãmã antes de dizer Coca Cola ao ver um anúncio da “viciante”, são algumas das delícias que deixam marcas em qualquer criança para o resto da vida. Talvez seja por tudo isto que, em qualquer mesa de restaurante, em bate-papo com amigos, e até mesmo sozinho, mas acompanhado da caixinha mágica, o mundo real esteja ficando cada vez mais virtual. Virtualmente. 

Por oportuno, imagino o que Charles Chaplin – “Carlitos”, para os menos chegados – não produziria em filme os tempos modernos que estamos a viver. Seria genial, como ele sempre o foi! Uma pena, ou uma tecla, se preferir.    

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