Adolescentes da terceira idade1O tempo vai passando, o homem ficando mais longevo e comprovando que suas oportunidades de continuar sendo útil à sociedade decrescem. Ao longo da história, cabelos brancos e rugas sempre foram sinônimos de sabedoria, experiência, prudência, sensatez. Eram o resultado de tudo aquilo que não se aprendia – e continua não se aprendendo – na escola. A não ser na escola da vida.

Hoje, um arsenal de artifícios leva o homem movido a marketing publicitário a tentar parecer o que não é e, pior, o que tem vergonha de ser. A poderosa indústria da juventude, que encanta os jovens e assusta aqueles com mais de 40, 50 ou 60 anos, estabelece conceitos e cria preconceitos aceitos por todos, sem dó nem piedade.

E como o ser humano adora rotular as coisas, idosa é aquela pessoa que já está na casa dos 60 anos (antigamente identificadas como sexagenárias). Após certa idade são induzidas a acreditar que seu potencial acabou, que são dignas de comiseração, que têm simplesmente que tocar a vida aguardando o fim de seus dias sem nenhuma perspectiva. E veja que tem gente, não pouca, com 70 ou mais anos, com mais vigor e cabeça que muitos de 40 – ou até menos idade. Mas o estigma imposto por nossa sociedade derrota muitas delas prematuramente.

Já é chegado o momento, portanto, de a idade cronológica dos menos jovens deixar de ser parâmetro para balizar caminhos e definir quem pode ou não fazer o que e em que condições. Estereotipamos tudo! E o lamentável é se constatar que, ainda, os critérios que permitem ao mesmo homem, com saúde, continuar dando sua contribuição à comunidade independentemente de sua idade, permanecem tão arcaicos como nos meados do século XX.

As grandes exceções são encontradas nos mundos da política, da ciência, das artes, da literatura. Presidentes como Reagan e Mitterand, primeiros-ministros como Churchill e Adenauer, cientistas como Einstein e Schweitzer, escritores como Jorge Amado, artistas como Paulo Autran e Dercy Gonçalves – adolescentes da chamada terceira idade – mantiveram-se ativos “até o fim”. Não foram jamais considerados perante a sociedade como septuagenários ou octogenários. Foram respeitados, sim, pelo que foram como pessoas, por sua contribuição em todas as fases de suas vidas.

Muito em breve o homem estará vivendo com saúde e disposição por mais de cem anos, com seus neurônios funcionando a plena carga. Será que teremos que aguardar até lá para considerarmos os nossos adolescentes da terceira idade como membros ainda aptos a desempenhar seu papel com dignidade? Ou devemos continuar depositando-os nos asilos sem esperança?

(Este texto está protegido pela Lei nº 9.610/98)