castas-nas-alturasA globalização, que nas últimas décadas vem permitindo a pulverização dos negócios mundo afora, parece não estar contribuindo para uma integração maior entre as classes sociais. A distância física entre países de culturas distintas foi encurtada, inicialmente pela aviação – acompanhada pelo desenvolvimento tecnológico, e via internet. A visibilidade se acentuou e as diferenças também.  

Em realidade, parte da humanidade vive com certo abastamento e outra – maior   – sobrevive em condições deploráveis. A exploração do ser humano por seu semelhante vem de tempos imemoriais. Apesar de 7 bilhões de terráqueos conviverem em situações conflitantes neste planeta, o distanciamento entre castas e os demais não parece se reduzir. Observo, não sem tristeza, que em nome do lucro a qualquer preço sejamos (quase) todos penalizados. As empresas de aviação são um exemplo.

Até a segunda metade do século passado o transporte aéreo de pessoas era marcado pelo conforto de passageiros sem “distinção de classes”. Priorizava-se, então, a comodidade e o atendimento. Poltronas espaçosas abrigavam tanto os de 40 como os de 120 quilos com todo conforto; variadas refeições de qualidade eram servidas em voos da ponte aérea ou transatlânticas; “overbooking” não constava dos dicionários.

Nos primórdios daquela época – população em crescimento e evolução da aviação – deu-se início à produção de mega aviões. Foram instituídas, “mercadologicamente”, duas classes: primeira e econômica. Para oferecer maior conforto aos “da frente” reduziu-se aquele para os “do fundo”. Posteriormente, com a introdução de mais uma classe – executiva (ou de negócios) – nela foram introduzidas poltronas ergonômicas e maior espaço entre um passageiro e outro. O pessoal “lá de trás” foi, mais uma vez, espremido.

Resumo da ópera: se você pode pagar, vai viajar por uma, doze ou mais horas com conforto. Caso contrário, terá de conformar-se com os apertos equivalentes aos do metrô ou ônibus urbanos. Infelizmente, a “discriminação” e o “descaso” das companhias aéreas pelo conforto de pessoas comuns tem sido crescente produzindo castas nas alturas.  

Algumas companhias aéreas têm investido em itens de alto luxo para um grupo seleto de clientes criando espaços a bordo capazes de ofuscar o que se chamaria de primeira classe. A Etihad Airways, dos Emirados Árabes, criou uma classe exclusiva: “The Residence”. As suites de luxo para duas pessoas no A380 têm espaço com três ambientes: sala de estar, dormitório e banheiro privativo com chuveiro. A Singapore Airlines oferece 12 cabines individuais, disponíveis somente no Airbus A380-800. Os espaços têm portas deslizantes e cortinas, além de uma cama separada da poltrona – que tem estofamento de couro e quase 90 centímetros de largura.

A esta altura, posso antever expressões de discordância: “ Ora, se sou abonado e fiz por merecer por que não usufruir? ” Argumentaria eu: você não é o problema! O problema é: por que tirar de quem tem menos para privilegiar – ainda mais – quem tem muito?

Boa viagem.

(Este texto está protegido pela Lei nº 9.610/98)