É tempo de Páscoa, nome cuja origem é hebraica – “pessach” – que significa “passagem”. Passagem de Jesus Cristo da morte para a vida: a Ressurreição.

Cristãos, nem todos é verdade, celebram a época como sendo uma data religiosa seguindo os preceitos da Igreja. Com o passar do tempo e a comercialização do evento – a exemplo do que acontece com o Natal – inventaram-se os ovos a serem distribuídos como presentes. Os originais, das galinhas, enfeitados com pinturas e gravações, deram lugar aos de chocolate desvirtuando, assim, uma bela tradição que se rendeu aos prazeres do paladar.

Não estou certo se nos dias de hoje as crianças conhecem e entendem o significado da data mais importante do calendário cristão. Praticar uma religião com compreensão plena de sua razão de ser não é para todos. Talvez seja esse o motivo de existirem centenas de igrejas cristãs – muitas fruto de cismas – criadas ao longo do tempo e ainda hoje proliferando mundo afora.

O saudoso Mestre Rubem Alves, psicanalista, educador, teólogo e escritor brasileiro, autor de livros religiosos, educacionais, existenciais e infantis escreveu, na Páscoa de 2014, uma obra prima de onde atrevo-me a extrair trecho de um parágrafo que bem retrata os tempos modernos com que celebramos a data.

“Ninguém sabe direito o que é que está sendo celebrado. E, para dizer a verdade, acho que são bem poucos aqueles que fazem alguma celebração. Antigamente semana santa era coisa séria. Lembro-me da procissão do enterro, os panos roxos, a banda de música tocando a marcha fúnebre de Chopin, as matracas, as mulheres mais piedosas carregando pedras na cabeça, como penitência…. Isso mesmo: as mulheres carregavam pedras na cabeça. Como é bem sabido, Deus gosta de ver os seus filhos e filhas sofrerem. Isso para não dizer da quaresma que a antecede, tempo em que as hostes do mal, demônios de todos os tipos, assombrações, mulas sem cabeça, almas penadas, ficavam soltas e todo mundo tinha medo de sair à noite. ”

Hábitos, costumes, tradições, até mesmo dogmas, mudam seu colorido – ou desbotam-se – com os passar das gerações. Inexoravelmente. A tecnologia vem transformando a humanidade em seres mais racionais, menos sonhadora, imediatista em ações e reações. Ao explorarmos o universo com o mesmo ímpeto que os antigos navegadores o faziam estaremos nos defrontando com novas fronteiras e conhecimentos que, talvez, nos obriguem a revisar conceitos e pensamentos tidos como imutáveis.

Aproveitemos “nossos tempos” e celebremos a Páscoa – cada um à sua maneira e crença – em harmonia com seu semelhante.

Feliz Páscoa!