O mundo assistiu, semana passada, a mais uma demonstração de intolerância racial nos Estados Unidos, em Charlottesville, Estado da Virginia. Intolerância nascida no século XIX, após a derrota do Exército dos Confederados do Sul na Guerra Civil Americana (1861-1865), sob a presidência de Abraham Lincoln.

A promulgação da Lei dos Direitos Civis só aconteceu em 1964, em 2 de julho, 99 anos após o término da guerra. Década em que ficou famoso o discurso do pastor batista e ativista político, negro, Martin Luther King Jr., cujo trecho mais notável foi: “ Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados pelo caráter e não pela cor da pele”. Foi assassinado em 4 de abril de 1968!

Charlottesville, nos dá uma clara demonstração de que as cinzas ardentes não se extinguiram. Em um mundo conturbado pela violência xenófoba, com milhões de imigrantes procurando países que os abriguem em sua luta pela sobrevivência, o país símbolo da democracia nos lembra que o sonho da liberdade para todos permanece um desafio por lá. A imponente estátua-símbolo, que representaria o que de mais sagrado poderia existir em um país, na entrada da Baia de Nova York, deveria – desde há muito – estar coberta por um véu negro.  

Parece ser que os preceitos da supremacia branca, do antissemitismo e apartheid – marcantes durante o século passado – ainda deixam resquícios. Até pacíficos brasileiros parecem contaminados pela ausência de amor ao próximo como nos revelou um vídeo recente, filmado no Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa.       

Um imigrante sírio, ambulante em rua de Copacabana –  a princesinha do mar – foi vítima de xenofobia e agressões gratuitas. Acusado, até de ser terrorista, de estar ocupando vaga de brasileiros que precisam de trabalho, foi execrado por outros vendedores.

Exemplo para aqueles que apelam para uma bolsa-família buscando a sobrevivência, Mohamed Ali, esse seu nome, ao contrário, vendia salgados árabes por ele produzidos em um tablado na calçada. Casado com brasileira e pai de um brasileirinho, este fugitivo da guerra no Oriente Médio, chegado a apenas três anos, deveria servir de exemplo.

Em um país desconhecido, de cultura e língua estranhas, Mohamed Ali não se intimidou com a crise econômica, desemprego ou incertezas. O que deixou para trás, inclusive familiares, não guarda comparação com o que aqui encontrou. Talvez a guerra forje a têmpera de homens como ele e os faz reconhecerem que – mesmo em um país atolado como o nosso – o sol aqui nasce para todos.

Para todos, sim! Mohamed Ali que o diga.