Desde que me entendo por gente ouço dizer que o brasileiro não sabe votar. Descartando o emocional de muitos, creio ser verdadeira a assertiva, considerando nossa realidade indiscutível. Indiscutível por que a realidade se encontra diante de nossos olhos, comprovadamente, a cada dois anos.

Somos todos obrigados, por lei, a votar. Caso contrário, “democraticamente”  punidos com multas e impedimentos, exceto se apresentarmos justificativas em tempo hábil.

Hoje, o voto facultativo está vigente em 205 países do mundo e só em 24 deles (13 na América Latina) continua sendo obrigatório. Logo, o Brasil continua entre os poucos países com voto obrigatório, uma clara anormalidade democrática.

A obrigação atinge os brasileiros alfabetizados que têm entre 18 e 70 anos de idade. Para os analfabetos, os maiores de 70 e os que têm entre 16 e 18 anos, o voto é facultativo. Ou seja, analfabetos podem, também, votar! Quero crer que a baixa escolaridade da sociedade contribui para a também baixa politização de nosso povo, com consequências fartamente conhecidas.

Diante desse quadro, fácil entender-se porque este país se encontra na contramão da história. Enclausurados, políticos que administram e legislam em causa própria são, todos e ainda, protegidos pelo guarda-chuva de uma estranha justiça quando pegos em prevaricação.

As instâncias a que réus podem recorrer no Judiciário – desde que possuam cacife suficiente para poder pagar, a peso de ouro, advogados influentes – são intermináveis, como vem sendo demonstrado no caso de muitos “expoentes“ réus da Lava-Jato. Já em Pedrinhas, Ceará…

Aliás, o Brasil é o único país do mundo que tem quatro instâncias recursais podendo ampliar a duração dos processos quase indefinidamente. 

Ademais, contamos com um Superior Tribunal Federal cujos ministros, inexplicavelmente, mantem “dormindo” em suas gavetas – há anos – processos de políticos com foro privilegiado aguardando julgamento. E dizem que a justiça é cega. Deve mesmo ser!

Afinal, como em uma reação em cadeia, todos os que ocupam suas cadeiras no Executivo, Legislativo e Judiciário, foram lá colocados por nós cidadãos: direta ou indiretamente. Assim, somos, sem choro nem vela, os únicos responsáveis pela tragédia nacional que assola o país.

A porteira da eleição majoritária de outubro está aberta. “Fazemos qualquer negócio, só não vale xingar a mãe”, vociferam os arautos das urnas.

Segundo já afirmou o deputado federal Tiririca: “pior que está não pode ficar”. Pode sim! Cabe a nós desmenti-lo, apesar de tudo e do tempo nublado.