Cansado de ver, ouvir e ler sobre tanta bandidagem, politicagem, conluios entre todas as camadas sociais e futilidades, decidi garimpar nesta semana assuntos que pudessem nos levar a mais reflexão em outra dimensão. Ou seja, a existência de conteúdo que nos permitisse continuar a ter mais esperança na espécie. Fora da caixa!

Pesquisando, encontrei uma magnífica matéria escrita pela jornalista Laura Plitt – BBC Mundo, enviada especial à Amazônia equatoriana.

Extensa e rica em detalhes, sugiro que procure lê-la na íntegra. Trata-se de reportagem sobre uma canoa alimentada por energia solar e que, desde 2017, percorre 67 km pelos rios Capahuari e Pastaza na Amazônia equatoriana. Atende cerca de mil pessoas pertencentes a uma pequena comunidade indígena – “achuar” – que dividida em nove assentamentos isolados vive às margens dos rios em cantos remotos.

As rotas, os horários, o porto central e outros assuntos relativos a seu funcionamento foram decididos pelas próprias comunidades com ajuda da “Plan Junto”, uma organização que se encarrega do aspecto comunitário do empreendimento.

A canoa se chama “Tapiatpia” em homenagem a um lendário peixe-elétrico da área e é o primeiro sistema fluvial comunitário solar da Amazônia. Com um teto de 32 painéis solares sobre uma canoa tradicional de 16 metros de comprimento e dois de largura, mas feita com fibra de vidro em vez de madeira para estender sua vida útil, a canoa tomou emprestado o desenho de embarcação típica dos indígenas cofanes do norte do Equador.

Quatro tripulantes trouxeram a canoa do porto de Iquitos, no Peru, até o território achuar em uma viagem épica de 1.800 km pelo rio, viagem que demorou 25 dias. Tapiatpia encarna a fusão da tecnologia moderna com o conhecimento dos antepassados. Fantástico!

“Esse modelo de transporte sustentável que percorre o território por suas rotas ancestrais, os rios, não só materializa um antigo sonho como também responde ao desejo profundo dessa cultura de viver em harmonia com o meio ambiente”, nos revela Laura. Vale repetir: “responde ao desejo profundo dessa cultura de viver em harmonia com o meio ambiente”.

O projeto ainda está em sua etapa inicial, mas se for bem-sucedido, tem o potencial de ser implementado em outros rios da bacia amazônica. Oliver Utne é o nome de um americano – jovem de pouco mais de 30 anos – que deu vida ao projeto Kara Solar (Kara significa “sonho” em achuar), depois de conviver com a comunidade durante anos.

Ao Oliver, nossas homenagens!