Houve um tempo em que os campeonatos estaduais de futebol tinham jogos apenas aos domingos e sempre entrando em campo com as três “categorias” – juvenis, aspirantes e profissionais (eufemismo para titulares). Juvenis às 09:15h, aspirantes às 13:15h e time principal às 15:15h.  Pelo menos era assim lá no Rio de Janeiro na época em que se ia ao “campo” para assistir aos jogos, sentava-se no cimento da arquibancada (se não fosse sócio do clube) tomando aquele sol.

Quando o time faturava as três partidas dizia-se que havia feito “barba, cabelo e bigode”. Depois, futebol só no domingo seguinte. E como curiosidade, lá na então Cidade Maravilhosa – que era mesmo maravilhosa – três dos quatro maiores clubes iniciaram suas atividades no remo e, assim, foram denominados Clube de Regatas do Flamengo, Botafogo de Futebol e Regatas, e Clube de Regatas Vasco da Gama.

Histórias de uma época em que a bola era de couro, pesava demais quando chovia, as meias eram de lã amarradas com um cadarço e quando o jogador se contundia quem entrava em campo era o massagista. Época, ainda, em que os jogadores vestiam apenas a camisa com as cores do clube e não se apresentavam com autênticos “outdoors”.

Época em que existiam craques (sempre os houve) que ganhavam salário para o gasto e “bichos” modestos. A maioria andava de ônibus e trem, sem essa de “staff”, assessores de imprensa, empresários, patrocinadores e “parças”, com muito amor à camisa; época em que não poucos fizeram suas carreiras no mesmo clube.

Época, também, em que os clubes tinham nome e cara! Hoje têm nome, mas não cara. Você consegue “cantar” o time titular do seu time, assim de cara, ou ele já vendeu e comprou alguém no fim de semana?

Pois é: dos campos, passando por estádios e chegando-se às arenas; do radinho de pilha – quando o imaginário dependia da narração dos grandes locutores – à TV com VAR (vídeo auxiliar do árbitro) na Copa do Mundo, o mundo girou muito, ficou menor, mas a paixão pela bola continua a mesma.

Acha que tudo isto é saudosismo? Julgue por si mesmo(a). Quem viu “astros” como Pelé, o atleta do século, jogar apenas pelo Santos; Nilton Santos – a Enciclopédia do Futebol – apenas pelo Botafogo; Oberdan Cattani e, mais recentemente, “São” Marcos pelo Palmeiras; Rogério Ceni pelo São Paulo e outros tantos que até debaixo de chuva não se “venderam” como mercenários, viu mais que jogadores de futebol: viu homens de brio, honrados, reconhecidos aos clubes que lhes deram projeção. E que, literalmente, vestiram a camisa!

É para ter saudade?