O dia 2 de setembro de 2018 entrará para a História do Brasil como sendo o mais trágico para a cultura e memória brasileiras.

O incêndio que devastou o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, em poucas horas, é uma demonstração inequívoca de como nossos governantes gerem a “coisa pública” – com absoluto descaso – sem a menor competência e responsabilidade. 

Vive-se, neste país, à mercê do acaso!

Seja na sobrevivência à insegurança que ceifa dezenas de vidas, diariamente, Brasil afora, em permanente guerra civil não declarada, seja no enfrentamento à dura realidade de não sermos, de fato, uma nação comprometida com valores cívicos, morais, éticos, arremedo de uma República!   

Como admitir-se que um prédio histórico de 200 anos – comemorados em junho – residência da família real no século XIX, área útil de 13.616 m2 e 122 salas, expondo e arquivando mais de 20 milhões de itens, venha sendo mantido, ao longo de anos, em condições precárias e sempre sujeito a riscos que ora afloraram?

O combate ao incêndio – como fartamente noticiado – foi prejudicado pela falta de água nos “dois hidrantes” próximos ao edifício. Caminhões pipa tiveram que recorrer a água do lago existente no parque. Apenas uma escada Magirus se encontrava disponível na maior parte do combate ao sinistro. Restou assistir-se, passivamente, ao fim de um capítulo da cultura brasileira.

Assim, merece destaque o olhar de Rui da Cruz Jr. – Servidor do Museu:

 “Queimamos o quinto maior acervo do mundo.

Queimamos o fóssil de 12 mil anos de Luzia, descoberta que refez todas as pesquisas sobre ocupação das Américas.

Queimamos murais de Pompeia.

Queimamos o sarcófago de Sha Amum Em Su, um dos únicos no mundo que nunca foram abertos.

Queimamos o acervo de botânica Bertha Lutz.

Queimamos o maior dinossauro brasileiro já montado com peças quase todas originais.

Queimamos o Angaturama Limai, maior carnívoro brasileiro.

Queimamos alguns fósseis de plantas já extintas.

Queimamos o maior acervo de meteoritos da América Latina.

Queimamos o trono do rei Adandozan, do reino africano de Daomé, datado do século XVIII.

Queimamos o prédio onde foi assinada a independência do Brasil.

Queimamos duas bibliotecas.

Queimamos a carreira de 90 pesquisadores e outros técnicos.

O que arde no Museu é uma parte da história antropológica da humanidade. Da história científica da humanidade.

(…)

… as salas de onde D. Pedro II reinou, com os corredores por onde transitaram os feitores da primeira constituição da república (…)

É imensurável o que perdemos.

Eu tô engolindo o choro.

 ‘Todos que por aqui passem protejam esta laje, pois ela guarda um documento que revela a cultura de uma geração e um marco na história de um povo que soube construir o seu próprio futuro’.

Era isso que vinha escrito no chão, frente ao Museu Nacional.”

Assim, réquiem para nossa cultura.

Obrigado por ler.