Há exatos dez anos escrevi o artigo que ora reproduzo. Por que o faço?

Por estar cansado de analisar, tentar compreender e entender os momentos infindáveis – conturbados – que estamos a viver neste país que sequer tema de samba enredo tem.

A semana que se encerra foi dominada por algaravias (linguagem confusa geralmente recheada de termos de várias línguas) nos meios judiciário e político.

O suficiente para tomar a liberdade de deixá-lo curtindo o que vai ler (ou, quem sabe, reler).

Os animais não falam, mas conversam. Os pássaros em particular se comunicam como que integrantes de uma orquestra sinfônica sem maestro.

Não foram ensinados a cantar assim como não estudaram engenharia para construir seus ninhos. Berços formados com penas e palhas que, a serem construídos por humanos, requereriam cálculos sofisticados para chegar à perfeição dos seus. A logística fica por conta da mãe natureza que se encarrega de prover a orientação e o conhecimento necessários para a sobrevivência da espécie.

Os humanos, deixando um pouco de lado a sofisticada tecnologia e o conhecimento factual poderiam se deixar levar, quem sabe, um pouco mais para o lado empírico da vida.  Perdemos a espontaneidade, a capacidade de perceber. Temos sido induzidos a raciocinar logicamente. Fomos ensinados a falar, caminhar, andar de bicicleta. A nos ocupar e preocupar com os ensinamentos acadêmicos, comportamentais, de resultados.

Permanecemos escravos libertos sem alforria procurando aqui e ali o que fazer com a liberdade. Liberdade limitada que pássaros engaiolados e tolhidos também têm. As emoções represadas nos negam, não raro, a capacidade de atuar livres de qualquer constrangimento. Observamos e somos observados. Julgamos e somos julgados. Condenamos e somos condenados.

O tempo que reservamos para contemplação de tudo aquilo que a natureza nos oferece gratuitamente, com exceções, é ínfimo. Faço alusão aos pássaros que sem bússolas, radares, manuais explicativos ou sexologia, procriam, se alimentam, cuidam dos seus, encontram rumos e climas propícios para sua subsistência. E de quebra, ainda nos brindam, sem ônus, com seus gorjeios se soubermos acolhê-los e respeitá-los em seu ambiente.

Pássaros não falam e se comunicam. Seres humanos falam e nem sempre o fazem. Apesar dos cursos de redação, retórica, impostação e derivados.

Essas criaturas que se recolhem ao anoitecer e se apresentam logo ao raiar da manhã alegremente também apreciam o silêncio em seus habitats.

Quem sabe possamos um dia aprender a falar menos e a cantar mais, raciocinar menos e perceber mais, olhar menos e enxergar mais!

Quem sabe…?