Ladeado por dois oficiais generais do Exército Brasileiro e acompanhado por uma penca de ministros, em reunião dita ministerial no dia 22 de abril, o presidente da República Federativa do Brasil fazendo uso de palavras de baixo calão – com frases chulas e pronúncia cristalina – demonstra não apenas aos brasileiros, mas ao mundo todo, o nível da mais alta instância do país. Um escárnio em relação a sociedade brasileira!

Fico a me perguntar qual a formação que os oficiais de nossa Força Armada terrestre têm recebido para compactuar e aceitar pertencer a um governo que, independentemente de sua ideologia, transmite à juventude deste país deplorável exemplo de comportamento permissível.

Será que o percurso desde a Academia Militar das Agulhas Negras até a cadeira de ministro – ou de vice-presidente da República – em Brasília, vem se deteriorando ao longo dos anos? Lastimável o exemplo de estrelados – daqueles que galgaram o ápice de suas carreiras – aos jovens oficiais de todas as Armas, aos estudantes civis de todos níveis, aos filhos de famílias que procuram – neste país conturbado por problemas sociais, econômicos, de saúde – demonstrar, em casa, diuturnamente, o saudável comportamento em sociedade.

Não se fala, aqui, em rebeldia, mas sim, em estapafúrdia conivência com condutas nada republicanos. Por oportuno, recorde-se a citação do jesuíta Simão de Vasconcelos, em 1663: “Ser republicano é saber que o Estado não é uma extensão da família, um clube de amigos, um grupo de companheiros”.  

A manifestação de diversos ministros de Estado durante a reunião do fatídico dia 22 – uns bajulando o chefe, apegados aos seus cargos, outros colocando em cheque a competência de seus pares – em vídeo que já se espalhou pelo mundo, revelou a pseudo-realidade de nossa educação, dos princípios morais e éticos que regem nossa sociedade no olhar dos que detém o poder, a caneta, que autoritariamente desafiam poderes constituídos sob o manto do “quem manda sou eu”. E que manda mesmo!

Em plena pandemia – em que mais de 1000 brasileiros vão a óbito todos os dias – nem uma palavra sequer durante a verborreia gravada ao vivo e a cores, em Brasília. Com mais de dois meses enlutando famílias país afora, não se teve notícia de visita do “quem manda aqui sou eu” a qualquer estado ou município, ainda que simbolicamente pudesse estar revelando apoio e reverência aos homens e mulheres da área médica – muitos já falecidos no exercício de sua dedicação e desprendimento – às autoridades locais e membros das atividades funerárias. Sensibilidade e respeito pelo próximo, zero.

Pede, ainda, que o ministro da Defesa e Moro assinem portaria para que ele mande ”um puta de um recado a esses bostas”, se referindo a prefeitos e governadores que implementaram medidas restritivas de isolamento.

A propósito, o presidente diz, ainda, que é “fácil impor uma ditadura” no Brasil e que por isso ele quer uma população armada – para reagir à bala as autoridades constituídas que tomaram medidas desesperadas para conter a pandemia. Isto não é crime?

Não devo prosseguir. Estou envergonhado como brasileiro nato, com família bem constituída. Encareço ao leitor que me perdoe pelo desabafo, que só não é mais contundente para evitar ingressar em território de polêmica irracional.

Que Deus nos ajude!