Não sei se estamos à beira do abismo ou no sopé de uma montanha para assistir ao seu parto, lembrando a fábula de Esopo:

“Uma montanha, vez certa, começou a fazer um barulhão. As pessoas acharam que era porque ela ia ter um filho. Um belo dia o barulho ficou fortíssimo, a montanha tremeu toda e depois rachou num rugido de arrepiar os cabelos. De repente, do meio do pó e do barulho, apareceu…um rato”. Moral: Nem sempre grandes promessas dão resultados impressionantes.      

Não fico estarrecido com o que vejo, testemunho, ouço, desde o início do dia até a hora de puxar os lençóis à noite, porque acompanho a história da humanidade há algumas décadas e pouco pode me surpreender nesta andança pela estrada da vida.

A história, desde tempos imemoriais, se repete simplesmente mudando personagens e cenários, mas o roteiro – independentemente de ser uma ópera bufa ou tragédia – permanece o mesmo com variações adaptadas ao momento. Conquista plateias de todas as cores no palco enquanto ao largo recebe vaias estridentes. 

Estamos falando de política, tema que desde a Grécia Antiga tem sido motivo de desilusão para não poucos. Segundo o filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.) o homem é, por natureza um animal político.

Há de se compreender, portanto, o tempo que estamos a viver – e com ele obrigados a conviver – tirando lições para que nossa efêmera vida possa transcorrer dentro do que preconizou Lavoisier (1743-1794) – considerado o pai da Química Moderna: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.  

Encarando uma pandemia que já vitimou mais de 890 mil brasileiros e levando mais de 44 mil famílias ao luto, o país se vê imerso em polêmicas que tratam sua saúde de forma abominável – para dizer-se o mínimo – diante do absoluto descaso do governo. O governo civil, encorpado por militares da mais alta patente, muitos ainda da ativa, entregou o seu mais importante ministério do momento a um general sem formação compatível, substituto de dois antecessores mundialmente reconhecidos por sua capacidade e competência médica.

Chegou-se ao absurdo de – sem confiar na instituição-mor responsável pela saúde do país – o governo incitar populares a invadirem hospitais para fotografar leitos vazios. Uma tentativa de destruir a credibilidade de gestores dos estados e municípios em seus esforços para minimizar a devastação do covid-19.

Com parte do legislativo cedendo ao canto da sereia por ambições sem nome, um judiciário tentando manter-se fiel aos princípios constitucionais – apesar da parcialidade de alguns de seus membros em instâncias várias – e um Executivo com demonstrações inequívocas de seus intentos – o país  atravessa mais um período histórico – não sei, repito, se aguardando o fim do estrondo ao sopé da montanha ou mirando o espaço abissal aos nossos pés.

Quem sobreviver, verá!