Quanto vale um ser humano?

Já nos rendemos à verdade de que apenas uma vacina comprovadamente eficaz pode reverter o quadro devastador que a covid-19 vem causando no mundo: mais de 16 milhões de pessoas infectadas e 657 mil passamentos (28/7). Nessa guerra, a OMS – Organização Mundial de Saúde – lista 133 estudos de vacinas contra a pandemia, inclusive quatro no Brasil.

De olho nas eleições americanas, em novembro próximo, Mr. Donald Trump já adquiriu as primeiras 100 milhões de doses da vacina contra a doença – o que equivale a toda a capacidade de produção até dezembro de 2020 – a um custo de US$ 1,95 bilhão, produzidas pela empresa farmacêutica Pfizer e sua parceira BioNtech.

De olho na etapa seguinte, a Pfizer e os laboratórios norte-americanos MSD (Merck Sharp & Dohme) e Moderna afirmaram que, caso tenham sucesso na produção, não a venderão a preço de custo.  AstraZeneca (europeia) e Johnson & Johnson (EUA) concordaram em, “inicialmente”, vender suas potenciais vacinas sem lucro. Seja lá o que isso signifique. Afinal, apenas os EUA possuem 326 milhões de habitantes.

Não por acaso, analistas americanos estimam que, caso a vacina da Pfizer se mostre proficiente, apenas esse laboratório deve faturar mais de US$ 15 bilhões no acordo com o governo dos EUA. “Business is business”. Alguma dúvida?

Somos 7,8 bilhões de terráqueos expostos à contaminação. Um mercado potencial a ser conquistado avidamente pelos laboratórios, mas que deixa uma questão: “quantos poderão pagar pela vacina, ainda que subsidiada”? Imagine-se, por exemplo, o continente africano: 1 bilhão de habitantes (12,8% de habitantes do planeta), economia precaríssima, PIB de apenas 1% do PIB mundial, 36,2% da população (1,5 Brasil) ganhando US$ 1 por dia.

Em uma atitude nada fraterna, mas compreensível de quem se trata, Donald já afirmou que pretende disponibilizar todas vacinas produzidas, gratuitamente, apenas para seus compatriotas assim que aprovadas. Só resta aos outros 7,5 bilhões de seres, como eu e você, cruzar os dedos.

E a pergunta que não quer calar: onde está o clamor mundial diante da manifestação trumpiana?

Que eu saiba, apenas Emmanuel Macron, presidente da França, inconformado, afirmou que uma vacina seria um bem público e “não pode ser sujeita a forças de mercado”. Touché! Quem dá mais?

A pandemia, como o próprio nome indica, é um problema global. A monopolização dos EUA nesse processo pode fazer com que outras nações prejudicadas, inclusive o Brasil, demorem mais a imunizar seus povos, o que levaria inevitavelmente a um sem-número de novas mortes em todo o planeta.

Mas, e daí, como já manifestado por aqui?

1 Comment

  1. A história se repete ….
    Desde que o mundo é mundo …
    Triste história ….
    Ótimo texto!
    🌿

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