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* * * Reflexão em 120 segundos * * *

Tag: Bem-estar (Página 1 de 5)

O mundo de cada um

O mundo de cada umPerdas ao longo da vida são inevitáveis. Perdemos parentes, amigos, animais de estimação, bens, negócios e oportunidades. E ainda, por vezes, a autoestima em face de adversidades inesperadas ou o encanto por belos momentos desperdiçados. São privações e provações, pegando-nos de surpresa aqui e ali e não há quem delas escape de uma ou outra forma. (Continua…)

Oração Celta

Oração Celta 
 
Que a estrada se abra à sua frente
 
 Que o vento sopre levemente às suas costas,
 
 Que o sol brilhe morno e suave em sua face
 
 Que a chuva caia de mansinho em seus campos
 
 E, até que nos encontremos novamente
 
 Que DEUS lhe guarde na palma de suas mãos
 

 

Quero aprender com você

“Não sou jovem o suficiente para saber tudo” (Oscar Wilde)

Durante a existência aprendemos muito, ensinamos um pouco, ignoramos outro tanto, vamos percorrendo cada ano vivido com mais conhecimento adquirido, muito embora nem sempre com a devida sabedoria. Em nossos primeiros trinta anos de vida – se tanto – conseguimos nos manter atualizados no desenvolvimento de nossas carreiras profissionais, manter em dia o vocabulário e gírias da moda, a par dos acontecimentos mundiais e mais uma infinidade de situações que a velocidade dos fatos e atos do momento nos vão deixando para trás.

Não conseguimos – conscientemente – nos dar conta da defasagem entre o universo dos mais jovens que vem a galope – ou velocidade supersônica, se preferir – e nossa desatualização. Obviamente, com o passar do tempo e o peso dos anos, que nada tem a ver com idade provecta, mas sim com o diferencial de tempo vivido entre gerações, o abismo cresce.

É verdade que a defasagem mencionada varia de pessoa para pessoa, em função de sua escolaridade, inserção no estrato social e interesse individual pelos acontecimentos vários. O computador e seus derivativos, como celulares, tablets, aplicativos, aparelhos de TV inteligentes, livros eletrônicos, acesso a compras pela internet e mais uma infindável alegoria de tecnologias, tem criado uma revolução no comportamento das pessoas distanciando-as ou aproximando-as.

Em termos sociais, não se trata mais de quem tem mais ou tem menos, mas sim de quem sabe e quem não sabe fazer uso das tecnologias colocadas à disposição de todos sem qualquer distinção de classe. A impressão que se tem é que os menos jovens começam a se sentir marginalizados – e até mesmo constrangidos em determinadas situações – como nos terminais de bancos, por exemplo.

Vivemos em uma época de sofisticação tecnológica e tsunamis de informação irreversíveis. Em tempos idos, a avenida de transmissão do conhecimento era de mão única: dos mais velhos para os mais jovens e ponto final. Hoje, com a mão dupla – sem mais essa de exclusividade – pais aprendem com filhos, avôs com os netos, professores com alunos brilhantes.

Maravilha que assim seja, eis que não deixa de ser uma transformação benigna para a aproximação entre as pessoas de sociedades que vem se desintegrando pela violência e omissão. Decifra-me ou te devoro, é o desafio!

Assim, caro leitor, quem sabe possa você me ensinar o muito que ainda não aprendi na vida.

Seja bem-vindo.

Mensagem à reflexão

Ele foi um dos grandes personagens da história por contar histórias, ter sido um homem eclético, aviador, poeta, pensador. Seu nome: Antoine Jean Baptiste de Saint-Exupéry, autor de inúmeras obras inclusive o famoso “O Pequeno Príncipe”. Suas mensagens simples, mas de profundidade incomum, nos legaram ensinamentos válidos em qualquer tempo. Uma delas, “Você é eternamente responsável por aquilo que cativa” cala fundo na vida de todos nós. Ou deveria calar. De caráter filosófico, sua percepção dos acontecimentos tinha como endereço certo adultos de todas as idades.

Cativar é um verbo com inúmeros significados que a tudo atende durante nossa existência. Somos de alguma forma e por não poucas vezes, picados pela mosca que nos leva a aproximação com pessoas ou – muitas vezes – a determinadas situações de forma involuntária. A atitude, quando espontânea – e sem qualquer interesse obscuro – pode se transformar em uma das mais belas formas de convivência humana. E não é difícil nos tornarmos presas de circunstâncias que desaguam na ligação – temporária ou permanente – a algo ou alguém por vínculos fortes independentemente de nossa vontade.

Desconsidero aqui as intenções torpes tão comuns entre aqueles de pouca estatura moral que fazem uso da sedução como recurso para atingir fins escusos. Mantenho-me fiel ao pensamento e ensinamentos de Antoine que possuía uma visão clara e límpida da vida fruto, talvez, de uma existência que lhe permitia ver de cima, dos céus às vezes pouco acolhedores, o comportamento de seus semelhantes.

Nem sempre nos é possível perceber o quanto cativamos alguém simplesmente por sermos como somos ou agimos; e no reverso da medalha, nem o quanto magoamos involuntariamente aqueles que tanto nos admiram e estimam.  Já aconteceu com você e comigo. Não fica ninguém de fora.

Quero crer que a mensagem de Saint-Exupéry seja aquela que nos leva à reflexão e não nos autoriza nem nos dá o direito de, literalmente, atropelarmos sentimentos daqueles que – não raro – silenciosamente, nutrem por nós admiração, respeito e até mesmo amor involuntário. Pensarmos como adultos e reagirmos com a sabedoria despoluída das crianças talvez seja o caminho para nos mantermos acordados diante da responsabilidade que temos perante aqueles que nos cativam e… cativamos.

Seu direito ao silêncio foi usurpado

Vivemos tempos conturbados ou mais conturbados. Informações de toda ordem são substituídas a cada instante se avolumando como em um caleidoscópio. Digeri-las em tempo hábil – e conscientemente – não é tarefa fácil. Entre as mais notáveis estão os descompassos entre a mãe natureza e o bicho homem. Fenômeno que vem se exacerbando e não é de hoje.

Desde os anos 80 e mais acentuadamente dos anos 90 para cá, os desequilíbrios ecológicos se fazem sentir com profundas perturbações climáticas, maior atividade dos vulcões, crescimento de tensões e conflitos no mundo e, principalmente, aumento geral de comportamentos desviantes nas pessoas. Não se trata de conjecturas, mas sim de ocorrências observadas pelos mais atentos.

Dentro desse comportamento desviante cumpre ressaltar o que seria cômico – se não fosse trágico. A Câmara de Vereadores de Holambra aprovou por 6 votos contra 2 projeto do Executivo para – PASME – aumentar o limite de ruído permitido no município. A aprovação, cuja defesa – a partir de premissas absolutamente equivocadas por parte de um de nossos vereadores – desrespeita leis estabelecidas e é mais uma afronta ao cidadão que paga seus impostos e tem direito ao sossego e a preservação de sua saúde física e mental. Os interesses financeiros, econômicos e comerciais falaram mais alto ao tratar de atender àqueles que privilegiam seus livros contábeis em detrimento do bem estar maior da sociedade.

Aos idosos de nosso Centro Social Holandês – referência nacional e exemplo de solidariedade humana -, aos internados no Posto Central de Saúde e aos moradores próximos do Espaço YPÊ – protagonista da infeliz iniciativa do executivo municipal -, só resta sofrer as consequências. Fosse o nosso país povoado por maioria educada, no sentido lato da palavra, e poderíamos almejar que contestações, manifestações legais e legitimas, fizessem valer a lei maior. Mas ainda não atingimos a maturidade para chegar lá.

Admitamos, no entanto, que a culpa por esse descalabro seja de muitos de nós que colocamos todos os responsáveis por essa aberração nos lugares por eles hoje ocupados, mediante voto democrático na eleição que os elegeram.

Mas se não há nada que possa ser feito agora permitamos, pelo menos, que se mantenha viva na memória – indelevelmente – as razões para suas futuras noites de desassossego. E que nas próximas eleições, com um brado retumbante, possa o cidadão holambrense – mediante voto consciente – reverter o triste quadro a ser enfrentado doravante pelo descaso e omissão de quem pode mais.

* Este texto está protegido pela Lei nº 9.610/98 *


Mestre Aldo

Portas existem para manter espaços reclusos, impedir passagens, criar obstáculos a acessos protegidos. Como nas mais variadas situações do dia-a-dia, barreiras criadas por nós mesmos, conscientemente ou não, impedem uma convivência mais pacífica e harmoniosa com tudo e todos – para atravessarmos as rotas que se apresentam.

A propósito, conheci um arquiteto há alguns anos, em Monte Verde, MG, que estava construindo sua casa, projetada por ele mesmo dentro de padrões pouco convencionais. Todos os cômodos da residência, de dois andares, eram interligados sem quaisquer bloqueios físicos, leia-se portas.  Construída em tijolo comum de construção, que normalmente viria a receber reboco para acabamento, sua aparência era a de uma obra inacabada. Até mesmo de ilusória aparência desleixada. Com materiais e sobras das redondezas ergueu a moradia de seus sonhos que representaria a liberdade de viver em liberdade ainda mais em um lugar como aquele. Pelo menos à época, décadas atrás. As janelas, ou melhor, os vãos que deveriam receber os caixilhos e janelas de madeira tradicionais, foram substituídas por juta pesada que permitiam em tempos sem chuvas o livre acesso de pássaros, ar puro e sol inclusive por um ponto zenital, contato direto com a magia das montanhas.

Aldo, esse seu nome, artista nato, formação em arquitetura, vivendo de seus projetos de viés ecológico, enxergava a vida por um ângulo que sempre nos lembrava de sua grande escola – a que tudo lhe ensinava: a natureza e sua convivência com animais e plantas. Até mesmo as horas dos seus dias eram ditadas pela posição do sol e relógio biológico. A mina d’água cristalina abastecia a caixa central por gravidade; esta por sua vez, alimentava através de canos de bambu o banheiro e a cozinha. O fogão a lenha se encarregava de cozinhar os alimentos e prover de água quente o chuveiro espartano que dava conta do recado até mesmo frente ao frio rigoroso dos invernos de lá.

Na contramão da história – já distante no tempo –, aquela figura especial, boa de papo, singela no conviver, balizou muitos de meus dias e forma de ver a vida dando ênfase e prioridade ao que é realmente importante. Aprendi que portas não precisariam ser fechadas nem trancadas estivéssemos nós mais próximos da natureza, observando o que ela nos ensina e fornece gratuitamente.

Utopia, direis vós. Mas como dizia o Barão de Itararé “da vida nada se leva a não ser a vida que a gente leva”. Uns com ai tudo: Ipod, Ipad, Iphone, e outros, como o velho Aldo, que já deve ter batido nos 90, se é que já não foi desta para melhor (na visão de alguns…), que curtiu tudo sem necessidade de curtidas outras.

TEMPOS MODERNOS

Vivemos dentro de verdadeira aglomeração. Falta-nos espaço para quase tudo, em aeroportos, aviões, ônibus, ruas, restaurantes, cinemas, bares, praias, postos de saúde e afins. O desconforto crescente e o estresse que o acompanha têm transformado nossas vidas em extenuante sacrifício. A tecnologia que deveria propiciar uma maior aproximação entre as pessoas a afasta do contato olho no olho.

Para muitos, o convívio diário exige um exercício de paciência e compreensão para fazer frente à realidade do dia-a-dia. Corremos sempre, sem tempo de ter tempo para nós mesmos, buscando válvulas de alívio no consumo, na bebida e, não poucos, nas drogas. A satisfação com metas e desejos atingidos é efêmera, pois  eis que uma vez conquistadas se tornam página virada rapidamente, desnudando-nos novamente e levando-nos a buscar mais.

A arte de conversar, sim, conversar é uma arte, foi saindo de moda, mudando o perfil dos encontros entre amigos que raramente se reúnem em ambientes mais reservados voltados exclusivamente para a troca de ideias, abordagem de assuntos de interesse comum, “estar pelo simples prazer de estar”. Situações que dispensam como pré-requisito o som que torna as conversas inaudíveis, o copo vazio reabastecido num piscar de olhos, uma atmosfera especial, diferenciada.

Fico com a impressão que perdemos a capacidade de pura e simplesmente desfrutarmos da presença do outro, nos interessarmos mais pelo outro que por nós mesmos, de estarmos ali inteiros sem necessidade de contar com agentes estimulantes de qualquer natureza. Impressiona-me, ainda, que muitas pessoas enquanto na companhia de outras dediquem mais atenção aos seus celulares que às conversas correndo em volta.

A introspecção, a meu ver tão importante para nosso equilíbrio e saúde, vem sendo perturbada pela ausência crescente do silêncio. Ler um livro, ouvir boa música, ficar consigo mesmo em ambientes tranquilos torna-se cada vez mais difícil.

As máquinas e os sistemas tecnológicos vêm ocupando espaços cada vez maiores em nossas vidas substituindo tarefas antes executadas pelo homem, poupando-lhe esforços, abrindo espaços nem sempre bem aproveitados. A velocidade impingida ao nosso dia-a-dia retira-nos o prazer e o sabor do desfrutar. Parece que fomos jogados dentro de uma centrífuga onde o tempo livre criado pela tecnologia, tempo a ser desfrutado, se perde nos espaço.

Quanto a mim, sem pretender ser poético, quero ter a liberdade de olhar pela janela e passear pela rua ouvindo os sons dos passarinhos, ouvir minha voz interior, ponderar sobre o que me aprouver, sem restrições.

Estamos condenados, sem direito a recurso

Somos espionados por poderosos do hemisfério norte, por câmeras de segurança instaladas em toda parte e até mesmo em banheiros públicos femininos – como se lê no noticiário. Já não é de hoje que estamos privados de nossa privacidade e cidadania ficando mais expostos que qualquer rei nu.

Privacidade? Não nos esqueçamos da internet que controla nossos hábitos, preferências e relacionamentos. Do Google Map, que mostra sua casa para o mundo, mas apenas por fora, afirmo sem muita convicção… Se “drones” com mísseis controlados a milhares de quilômetros de distância são capazes de acertar a testa de terroristas protegidos por segurança máxima, o que mais se pode esperar em termos de nossa visibilidade ou “invisibilidade”?

Cidadania? Se vamos ao supermercado sem óculos, ficamos mais perdidos que cegos em tiroteio, incapazes de ler os rótulos expostos em produtos visando cumprir a lei. Se expressam a verdade é outra história, haja vista denúncias divulgadas pela mídia sobre malandragem nos pesos, volumes e conteúdo, até mesmo em produtos de “marca”.

Bulas de remédio, então, são casos de polícia. Verdadeiros “tratados” redigidos para proteger os laboratórios contra processos judiciais são mais uma afronta ao consumidor obrigado a tomar medicamentos. Tenho todo respeito pelos doutores, mas com a enxurrada de visitas de representantes de laboratórios aos seus lotados consultórios, fico me perguntando onde encontram tempo para se familiarizar com os riscos, reações adversas e contraindicações das centenas de medicamentos. E mais: como conhecer o perfil completo dos pacientes nesses dias de consultas a cada vinte minutos e, raramente, com o mesmo médico do convênio ou SUS? Além disso, quantos são os capazes de ler e entender o que está escrito nas bulas neste país com largo contingente de semianalfabetos?

A sensação é que estamos condenados, sem direito a recurso. Condenados a consumir produtos intencionalmente manufaturados para não durar; a comprar remédios vendidos em cartelas e vidros sempre em quantidade superior à normalmente prescrita pelos esculápios, enriquecendo laboratórios; a abastecer o carro pagando em uma moeda com… três dígitos (R$ 2,799/l por exemplo); a comprar, sem opção, “pacotes” da televisão paga que incluem, obrigatoriamente, canais que não interessam ao assinante; a abrir a página inicial do provedor de acesso à internet, tentar ler algo e ter o conteúdo “bloqueado” por propaganda. Somos joguetes nas mãos do sistema. Sem luz no fim do túnel!

Resta-nos tocar trombone.

Quiçá alguém ouça, aprecie ou toque conosco.

Dar tempo ao tempo

Quando garoto, moleque, e como qualquer um naquela idade, vira-e-mexe lá estava eu aprontando. Nada grave, mas para os padrões da época – quando crianças e jovens eram educados com rigor – umas palmadas até certa idade caiam bem, pelas travessuras cometidas. Mais tarde, já querendo fazer a barba, vieram os sermões e os cortes de mesada (que já não era lá essas coisas…)

Os tempos eram outros. Tempos em que se crescia, amadurecia mais lentamente e sem grandes percalços; tempos em que a preocupação maior dos pais era com o cigarro, o horário tardio – 1 da matina e olhe lá – para chegar em casa depois das festinhas (arrasta-pés), atrasar para o almoço vindo da praia, matar aula ou ficar “preso” depois delas por indisciplina, sumir por horas andando de bicicleta até em outros bairros, pegar e saltar do bonde andando, ficar namorando no portão da casa da namorada perdendo a hora. Quem viveu aqueles tempos há de acrescentar muito mais a esta relação.

Teria sido mais fácil educar os filhos então? Não saberia dizer. Eles continuaram tendo os seus e a fila andando. Olhando pelo retrovisor assisto a uma paisagem diferente, com cenários que em nada lembram aqueles das escolas com professores e alunos disciplinados, “cuba libre” sem capacidade de deixar alguém alterado nas festinhas em casa, namorar no escurinho do cinema – sempre de olho no “lanterninha” – depois de ter marcado encontro na porta do dito. A lista de boas recordações é infindável. Mas há que se considerar que naqueles tempos éramos menos de 90 milhões neste país. Hoje, somos mais de 210. Explosão demográfica com consequências, não apenas por aqui!

Saudosismo? Definitivamente, não! E por que não? Porque é meu entendimento que as descobertas tecnológicas e o crescimento demográfico fora de controle nos últimos 50 anos foram maiores que em todo período de existência da humanidade. Houve uma aceleração de tudo que se possa imaginar, sem precedentes, em todos os sentidos, o que levou os habitantes deste planeta a terem dificuldade de assimilar todas as inovações levando o ser humano a uma indigestão de informações e fazendo-os sofrer de verdadeira concussão de hábitos e costumes. Como consequência, durante a jornada, tem-se passado – sem escalas – da infância à fase adulta, queimando etapas que estão, agora, a nos fazer falta. Não temos dado tempo suficiente ao tempo. Assim, continuamos sem desfrutar, ainda, de todas as benesses trazidas pelo desenvolvimento que, em tese, deverá levar o ser humano a viver mais e melhor sob todos os aspectos.

Mas para algumas gerações à frente, quem sabe, o bilhete talvez possa estar premiado.

Tempo instável com chuvas e trovoadas

Na “próxima” quero nascer cachorro. Mas quero, também, ter um dono, ou dona, que cuide de mim da mesma forma que o Nicky é cuidado 24 horas por dia. O dito não é nosso, eis que veio emprestado para resolver um problema doméstico-familiar, e tem tido direito a todos os direitos que qualquer ser humano deveria ter. Bem abrigado, nutrido de acordo, assistido em sua saúde por profissional competente, responsável e disponível, segurança absoluta, transporte de qualidade. É o retorno do investimento que Nicky tem feito ao longo de sua longa vida – desinteressadamente – ou seja, fidelidade, companheirismo, troca de atenções e muito carinho.

Aos onze anos se comporta disciplinadamente não enchendo o saco de vizinhos com latidos irritantes por qualquer motivo, que só fazem perturbar o sossego alheio. A não ser que rojões, morteiros e similares sejam despejados no ar; aí o bicho pega. Como pega, também, quando as trovoadas chegam fortes e impiedosas. Aliás, quem tem bichos sabe que o fenômeno climático é percebido pelos canídeos segundos antes de explodir confirmando sua percepção excepcional. E somos nós, bípedes dotados de alguma inteligência, alguns, os considerados perceptivos…

Como no caso de seres humanos, são muitos os cães que não estão nem aí para barulhos infernais que colaboram para o ensurdecimento da população. Muitos (cães…) tem apenas medo ficando assustados com os estrondos. Outros, como o Nicky, começam a latir sem parar como se quisessem coibir os excessos da natureza no grito. Sem acordo! Mas como somos – ou tentamos ser – eu e minha mulher, pessoas responsáveis preocupadas com o bem estar do próximo, procurando respeitar, inclusive, seu direito ao silêncio e ao sossego, colocamos Nicky para dormir dentro de casa em lugar protegido, e assim evitar quaisquer desconfortos para nossos vizinhos. Quanto ao nosso, sem escapatória…

Mas a vida é assim mesmo. O que realmente me entristece é que muitos humanos – em situações idênticas ou parecidas, independentemente dos motivos – não se colocam no lugar daqueles que têm direito, também, ao sagrado silêncio que a ninguém perturba. Nicky, em muitos de seus ensinamentos, tem nos colocado à prova da compreensão e paciência. Não tem sido fácil o aprendizado, mas para quem tanto recebe, o preço a pagar é uma pechincha.

As chuvas estão chegando, as trovoadas também. Nicky olhando agora nos meus olhos como a se desculpar – olhar lânguido –, irracionalmente parece dizer: “guenta a mão aí”.

Au, Au, Au!

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