PONDERANDO

* * * Reflexão em 120 segundos * * *

Tag: Bem-estar (Página 2 de 5)

Mesmice de uma nota só

A rotina faz parte de nossas vidas desde o acordar até a hora de colocar a cabeça de volta no travesseiro à noite. Imersos em obrigações de toda ordem, encontramos dificuldade em alterar a rotina do dia a dia por razões várias. Correndo sempre contra o relógio, despendendo energia para enfrentar o trânsito intransitável, suportando o pouco respeito dos outros que costumeiramente se atrasam para compromissos assumidos – alô alô, meus amigos médicos: perdoem-me, mas já está na hora de acertarmos os ponteiros… -, acabamos presos aos caprichos do vaivém diário. Arre!

Não nascemos para viver como máquinas programadas para obedecer a rotinas rígidas. Aferrados a condutas arraigadas que engessam, rotinas pouco maleáveis embaçam a oportunidade de descobrirmos o novo. Descobertas que, sem qualquer prejuízo para atingirmos os fins a que nos propomos, permitem um olhar diferente e prazeroso de tudo que nos cerca. A velha e conhecida história do olhar sem enxergar…

É impossível vivermos sem rotinas. Entretanto, a exemplo das composições musicais, quando arranjos são criados para torná-las mais atraentes e agradáveis aos ouvidos, alternativas para compormos a programação do nosso cotidiano são, também, viáveis e principalmente desejáveis.

Começando pela vida em casa, a maioria das pessoas segue uma rotina rotineira (perdoe-me pelo pleonasmo), desde a forma de escovar os dentes, se vestir, sentar-se à mesa sempre no mesmo lugar, assistir aos mesmos programas de televisão diariamente, se acomodar na poltrona que já se tornou cativa. Daí para a cama sua rotina é a mesma faz anos, admita. Ou seja, a rotina dentro de casa do acordar ao deitar sofre pouca ou nenhuma variação dia após dia. Fora dela (da casa), o roteiro para o trabalho é, invariavelmente, o mesmo e fora dele para almoçar com ou sem happy hour mais tarde também. E assim, no meio da semana, as pessoas esperam ansiosas pelo seu fim para continuar a fazer as mesmas coisas, apenas com ajustes aqui e ali como nas peças musicais. Haja!!!

Estou simplificando, eis que o assunto daria para escrever um livro. Mas minha curiosidade é saber até onde as pessoas se disporiam a, por exemplo, usarem um transporte alternativo para ir trabalhar, não acessar a internet e a televisão duas vezes por semana aproveitando a oportunidade para conversar com o marido, a mulher, namorado ou filhos, trocar de lugar à mesa, até mesmo trocar de lugar na cama (entenda-me!).

A mesmice do dia a dia, impregnada por hábitos enraizados, torna a vida de muitos uma monotonia só. Espero que a sua seja diferente. Olé!

Palavras, palavras…

O homem não nasce falando. Aprende a falar e a escrever uma ou mais línguas para se comunicar, entender e se fazer entender, transmitir um pensamento. Segundo o cientista Russel Gray, da Universidade de Auckland, Nova Zelândia: “A diversidade das línguas do mundo é incrível. Há cerca de sete mil línguas faladas hoje em dia, algumas com apenas uma dúzia de sons contrastivos, outros com mais de cem, alguns com padrões complexos de formação de palavras, outros apenas com simples palavras, alguns com o verbo no início da frase, outros no meio e no final”.

Uma verdadeira babel!

São poucas as pessoas que conseguem transmitir com exatidão o pensamento falado ou escrito de uma língua para outra. Até mesmo na própria língua-mãe. A interpretação de textos, sejam eles antigos ou modernos, é fundamental para a formação de ideias, juízos e conceitos, sabemos todos. Daí as distorções encontradas em traduções e versões que geram polêmicas quando defrontados uns perante outros, buscando entender o verdadeiro sentido do significado de palavras proferidas ou escritas.

Este pequeno introito serve para nos lembrar das dificuldades enfrentadas na comunicação entre pessoas e povos. Fôssemos todos mudos o número de desentendimentos entre os que se manifestam pela palavra falada seria possivelmente menor. Não é menos verdade que a escrita (palavra) pode, também, causar danos às vezes irreversíveis.

Falar é tão simples quanto respirar, tão natural, que dificilmente nos damos conta das agressões verbais cometidas, ainda que inconscientemente. Magoamos pessoas, deixamos nelas marcas indeléveis, não raro com boas intenções. Sem qualquer esforço, proferimos palavras antes mesmo que o pensamento esteja pronto para liberá-las; a famosa frase “falei sem pensar” é testemunha de dissabores causados pela afoiteza. Dissabores que podem não ter volta. A sabedoria chinesa nos ensina através de um provérbio que “Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida”.

A contrapartida são frases ouvidas ao longo da vida que ecoam dentro de nós por todo o sempre. Lembram épocas, momentos inesquecíveis, muitas vezes totalmente ignorados por quem as pronunciou. Somos extremamente sensíveis ao que ouvimos, talvez até mais do que ao que vemos.

Não trago nenhuma novidade nestas ponderações, mas quero crer que o simples fato de pensar sobre o assunto durante o tempo dessa leitura pode vir a, quem sabe, ajudá-lo no futuro.

Dependendo de sua idade, esse papo não é furado…

Razão de Viver

O mundo está em crise. Ora, o mundo sempre esteve em crise, mas ainda nos surpreendemos a cada novo acontecimento catastrófico. Crises políticas, econômicas, sociais, regionais ou internacionais sempre fizeram parte do cotidiano dos povos em qualquer lugar do planeta.

Enquanto bípedes dotados de inteligência – às vezes não muita, é verdade – existirem nesta Terra que dizem ser azul, conflitos de toda ordem serão notícia diariamente. Aliás, nem sei por que esse corpo celeste sem luz própria que gira em torno do Sol chama-se Terra. Afinal, 71% de sua superfície são cobertas por água e apenas 29% são continentes e ilhas. Não deixa de ser curioso.

Geografia a parte, o entendimento entre humanos sempre foi difícil, complicado. Somos seres diferentes, com interesses distintos que apenas se aproximam quando a sinergia funciona em proveito próprio, ou seja, quando 1+1=3. E mesmo assim por tempo determinado até que se exaurem as razões da convivência harmoniosa.

Somos egoístas por natureza ou, quem sabe, fomos aprendendo e induzidos a sê-lo ao longo da jornada. Ao nascer somos motivo de alegria àqueles que nos cercam. Não há quem resista ao sorriso de uma criança, volte a ser um pouco criança, dispa-se – ainda que por momentos – da couraça que nos faz parecer o que não somos. Em que momento passamos a ser entortados, destituídos de nossa natureza inocente, focados com lentes distorcidas? Tema a ponderar!

Crescemos guiados pelas mãos daqueles já deformados, assimilando até de forma obrigatória conceitos e valores impostos, buscando aceitação em uma sociedade que se comporta de acordo com sua geografia. Sim, porque os conceitos de liberdade, educação, moral, princípios, ética não são unos. Vivemos em um mesmo solo, separados por terras e mares desde tempos imemoriais que nos tornaram estranhos uns aos outros, suspeitosos e egocêntricos.

Como em um passe de mágica, o mundo poderia ser governado por crianças as quais, com sua candura, sem qualquer programação lógica, mas com espontaneidade no pensar e no agir, levariam a bom termo projetos para uma vida equilibrada, socialmente mais justa para todos. A socialização espontânea desses pequenos seres é surpreendente, mas apenas enquanto pequenos e antes de serem submetidos às regras que o mundo lhes impõe.

Mas quem sabe dentro de algumas centenas de anos, dezenas talvez, com a tecnologia aproximando culturas, tornando-as visíveis e mais compreensíveis possamos, assim como as crianças, encontrar o entendimento fácil – apesar das birras de uns e outros – tornando nossa existência uma verdadeira razão de viver.

Quem sabe?

Horizontes

Houve um tempo, faz tempo é verdade, que os jovens cresciam, atingiam a adolescência, cursavam a faculdade muitos, namoravam, casavam e tinham filhos vivendo sempre no mesmo lugar. Sua exposição ao mundo além-fronteiras, de sua cidade ou estado, eram esporádicas. Tempos idos.

O desenvolvimento tecnológico escancarou as portas das oportunidades para os jovens, abrindo-lhes horizontes ao vivo e a cores antes apenas conhecidos nos filmes, livros e revistas. Claro está que essa era a verdade apenas para a massa da população que não incluía os nascidos em berço de ouro, platina ou mesmo de prata.

As comunicações – atingindo níveis jamais imaginados poucas décadas atrás – demoliram as barreiras que impediam o conhecimento e aproximação com outras culturas, povos, línguas, abrindo mentes, expondo as vísceras de outras realidades. Era a imaginação antes trabalhada por imagens e palavras cedendo lugar ao sentir com os cinco sentidos. Realidades diferentes, melhores algumas, piores outras, se comparadas com as conhecidas que ficaram temporariamente para trás.

O que era caro passou a ser accessível, o cordão umbilical arraigado na mesmice rompido, o desprendimento possível. Tornou-se viável uma (r)evolução nos costumes, o respirar da pseudo-liberdade de estar andando com suas próprias pernas e pensando com sua própria cabeça, cursando a escola desconhecida de uma vida com outros cheiros, paladares e sons singulares. Deixou de ser sonho o conviver com a incerteza do certo e do errado, aprendendo passo a passo os meandros de outras culturas, corrigindo conceitos e preconceitos, até mesmo sem sair de seu próprio país.

Nossa aldeia global vem recebendo de braços abertos os que se dispõem a partilhar, aprender, divulgar, ensinar, enfrentar desafios com a cara e com a coragem própria dos jovens que tudo podem e tudo querem. Sem compromissos definidos, sua visão otimista, ainda não afetada pela miopia dos anos, descortina horizontes até então embaçados pela ignorância.

Uma viagem vale por mil preleções. Rejuvenesce o espírito dos menos jovens, levanta a cancela das limitações impostas pelo cotidiano de todos nós, desbrava fronteiras, deixa gravada recordações que o tempo não apaga.

Mas nem sempre é preciso fazer as malas. Ter um olhar renovado e atento para o que sempre esteve aqui e acolá, alteradas pelas mutações naturais do tempo, pode nos levar à uma viagem de volta às nossas descobertas primeiras. As folhas cedidas pelas árvores no outono estarão sempre de volta na primavera. Há um tempo para plantar e outro para colher.

Simples assim. Basta manter a jovialidade.

Abanando o rabinho

As definições de amigo são inúmeras e procuram refletir um estado de espírito em relação ao outro. Trata-se de um sentimento consolidado com o tempo e, quando verdadeiro, pode perdurar por toda uma vida, independendo de variáveis e circunstâncias diversas.

A amizade mais conhecida e reconhecida é aquela entre o homem e os animais, notadamente os cães. Sua fidelidade – a dos cães – ultrapassa qualquer fenômeno, sendo marcada por eventos ocorridos até mesmo após a morte de seus donos. Qualquer animal pode se afeiçoar a um humano desde que preenchidas óbvias premissas que partem do âmago do ser. Não são raros os relacionamentos afetivos até entre feras e homens, fenômeno, também, incompreendido pelos menos atentos à realidade da vida.

A amizade, sentimento de estima ou solidariedade entre pessoas e animais, está permanentemente sob o crivo das ações e reações por atos e omissões. A insensibilidade e egoísmo humanos, por vezes, podem comprometer amizades que se deixam corromper ao menor desvio nem sempre intencional. Já os animais, são mais tolerantes e compreensivos com as reações humanas, reações impensadas deflagradas em momentos de raiva ou angústia. Parece não existir rancor por parte dos “irracionais” após deslizes sem grande importância no comportamento de nossa espécie. Sua capacidade de perdoar e abanar o rabinho, passado o momento de desvio, toca o mais insensível dos corações.

Talvez por não possuirmos rabinhos… nossa condescendência em relação ao outro seja pequena ou nenhuma. É crescente o número de pessoas que adotam os caninos por diversas razões sabidas: companhia, socialização de crianças, proteção do lar, alegria de conviver com aquele que nada cobra, muito oferece e jamais, jamais cometerá um ato que decepcionará seu dono ou dona. Absolutamente dependentes, sua fidelidade – a conhecida fidelidade canina – é difícil de ser explicada. Irracionais, segundo consta, possuem características inatas que vão desde a índole da raça ao instinto de preservação daqueles que os adotam. Os cães-guia, treinados como anjos da guarda para proteger e orientar pessoas com deficiências visuais são uma extraordinária revelação desse mundo que os humanos consideram animal.

E ainda assim, o dicionário, aquele que apresenta os significados de palavras de uma língua, define como cachorro também, em sentido figurado, pessoa inescrupulosa, sem dignidade. Expressão cunhada pela sensibilidade humana. Humana? Mas quem sabe um dia, aqueles que falam com o olhar e se expressam com o rabinho abanando poderão vir a nos adotar em um mundo novo. Quem sabe.

Au, au, au prá você.

Religare

Guardadas as fantasias, “aquelas que nos permitiram conviver temporariamente com a irrealidade”, voltamos à realidade deixando para trás o mundo da fantasia. O Carnaval já é passado.

A renúncia do Papa Bento XVI, a partir do fim do mês, tem ocupado o tempo de articulistas e analistas num infindável caleidoscópio de visões sobre o futuro da igreja católica. Consciente de que vivemos – faz tempo – em tempos outros, com a ciência desvendando e comprovando a materialidade da vida, Sua Santidade clama por uma reformulação dentro da Instituição. Mas respeitando a individualidade, de braços dados com a realidade do mundo em que estamos vivemos.

O assunto religião é delicado, pois incorpora em seu bojo uma pluralidade de dogmas; muitos, inclusive, responsáveis por guerras, isolamentos, explicitando a fragilidade e fraquezas do ser humano. Dentro de minha limitada capacidade de compreensão, esbarro em situações conflitantes por entender que ao nascer não escolhemos seja lá o que for. Éramos, então, livres!

Liberdade logo perdida, eis que durante nosso desenvolvimento fomos ensinados e direcionados, sob a batuta de pais, professores, mentores, religiosos a seguir caminhos predefinidos. Como se colocados em um bonde sobre trilhos, não nos foi permitido – até que estivéssemos devidamente “configurados” – optar por algo distinto de tudo que nos foi ensinado. Mais tarde, muito tarde por vezes, pretendemos assumir as rédeas de nossas vidas, mas nem sempre com sucesso.

Talvez a religião seja uma das poucas crenças que permita ao ser humano rever seu posicionamento antes da hora final. Desde sempre o homem sente a necessidade de reverenciar, na busca de uma aproximação com um ente maior que possa oferecer-lhe conforto, proteção e esperança em momentos diversos. Apesar disso, não são poucos os agnósticos.

O mais intrigante é que existem inúmeras crenças e doutrinas, tão díspares entre si, mas que pregam um mesmo fim, qual seja, a trilha do bom caminho em vida, difundindo conceitos honestos que permitam ao homem viver melhor consigo mesmo. Não é menos verdade, contudo, que os ensinamentos e sua forma de execução são, por vezes, distorcidos em sua essência pois, afinal, somos seres humanos ensinados, imperfeitos, com falhas de formação, ambiciosos e egoístas.

Religiosidade vem do latim “religare”, que significa religar o céu e a terra, religar o que deixou de ser ligado. São dezenas as opções procuradas e inúmeros os fatores pessoais que levam alguém a buscar a ligação. Não existe fórmula ensinada nem experiência alheia que possa nos indicar o espaço a percorrer.

Somos singulares. Assim, é preciso, primeiro, acreditar.

Caminho das Pedras

Leio, pela imprensa, que um catarinense de 90 anos trabalha para a mesma empresa há 75. Recorde brasileiro de permanência como funcionário de uma mesma firma. Uma admirável história que não se conta nem se escreve mais. Mas que pode ser encontrada se pesquisar no Google pelo nome dele: Walter Orthmann. Vale a pena conferir.

Houve uma época em que havia fidelidade entre funcionários e empresas e vice-versa. Tempos idos. A profissão, o trabalho realizado, a consideração recebida e devotada, eram ingredientes que tornavam ambas as partes elementos de uma mesma família. Uma época em que o dinheiro, como sempre, era importante sim, mas seu valor era superado por outros (valores) que foram se perdendo com o passar dos anos. Respeito e consideração eram alguns deles.

A tecnologia, a feroz competitividade por empresas e pessoas, a sobrevivência de ambas – medidas apenas pelos resultados de balanços e balancetes – desfiguraram, tanto umas como outras, eis que ambas passaram a ser avaliadas exclusivamente por números no mundo dos negócios.

Empregados fiéis orgulhavam-se de pertencer à empresa, ao comércio, ou ao banco. Como os professores, com fortes vínculos não apenas com as escolas, mas com seus alunos também. Vínculos muitos, mantidos por anos a fio estreitando laços que representavam fases importantes das suas vidas.

Não é fácil o relacionamento entre empresas e funcionários de qualquer escalão. Seus interesses são pouco coincidentes e aquela noção antes existente do “vestir a camisa” pouco acontece hoje em dia. Se é que ainda acontece. Ambos querem ganhar mais dinheiro – o que é perfeitamente legítimo – mas, mas, quem pode mais pode menos. Redução de custos, fusões, otimização e outros adjetivos bem qualificativos, além da idade, outrora considerada como fator importante para as empresas pela experiência adquirida por aqueles que a serviram com dedicação por tanto tempo, passaram a ser o fio da navalha. Talvez por isso o empreendedorismo venha crescendo tanto.

Sem comprometimento por qualquer das partes, ambos zelam pelos seus interesses econômico-financeiros sem nenhum pudor. O cifrão passou a ser a referência faz tempo. O assalariado vende seu conhecimento e o negócio o compra a preço de mercado. Ponto final.

Absoluta verdade que empresas são constituídas para lucrar, excetuando-se as filantrópicas. Vivem e sobrevivem à custa de seus talentos humanos os quais deveriam ser vistos como seres que trabalham porque precisam, possuem família e anseios pessoais, muitos dos quais o dinheiro não compra.

Walter Orthmann e sua empresa ensinam!

Muito de muito

Somos uma sociedade consumista por excelência. Recentemente ouvi de um famoso sociólogo: “você é o que você consome”. Ponderando a respeito… constato que após a revolução industrial fomos, paulatinamente, nos tornando uma espécie de indústria-dependentes. Com a criatividade que lhe é peculiar, identificando meios e modos de satisfazer o comodismo de seus semelhantes, o ser humano vem desenvolvendo sua capacidade de produzir bens cada vez mais sofisticados para atender à demanda do conforto e da vaidade.

Governados que somos pela mola que move o mundo – o dinheiro – vivemos crises econômicas cada vez mais intensas que atingem países e pessoas deixando clara a fragilidade de um sistema que penaliza milhões em todo o planeta. Paradoxalmente, quero crer que nascemos e vivemos para desfrutarmos de tudo aquilo que a vida nos oferece, a começar pela natureza que com seu desprendimento nos oferta como presente, gratuitamente, o essencial para uma vida plena.

Através dos séculos desvirtuamos nossa forma simples de pensar e de viver, invertendo polos de satisfação e bem estar, dando prioridade ao ter mais, relegando o ser mais. Fomos nos tornando uma espécie de autômatos, mergulhados em uma engrenagem cuja meta na vida é – vida tão frágil, cabe lembrar – consumirmos à exaustão perseguindo e tentando satisfazer anseios estimulados por indústrias e meios de comunicação.

Não creio que estejamos sendo mais felizes por, muitas vezes, alcançarmos mais, possuirmos mais. Como as ondas do mar que se sucedem infinitamente, nos tornamos reféns de uma vontade influenciada pela competente máquina de persuasão que é a propaganda. Torna-se quase impossível resistir aos apelos de compra, maquiavelicamente produzidos para atingir nosso inconsciente. São facilidades a mais colocadas à nossa disposição, a apresentação do novo que descarta o antigo ainda plenamente utilizável em toda a sua extensão, a adesão ao “hit” do momento. E como a vida é feita de muitos e sucessivos momentos… engatamos em um moto-perpétuo.

Jogo no time dos que, heroicamente, tentam resistir ao supérfluo. Como nasci e vivo em um país abençoado, livre de catástrofes maiores, sem participação em guerras e atentados, com sol, samba, futebol e lindo por natureza, não creio que precisemos de muito para realmente desfrutarmos de uma vida plena, cuja definição certamente varia de pessoa para pessoa.

Honestamente, tenho reais dúvidas sobre nossa capacidade de usufruirmos de tudo que possuímos. Um exame de consciência isento, quem sabe, pode nos revelar surpresas agradáveis. Não custa tentar.

Desigualdades

O mundo atravessa uma crise econômica profunda, milhões de pessoas desempregadas, países mergulhados em um buraco negro, jovens e aposentados enfrentando dificuldades financeiras de toda ordem. Ao mesmo tempo, jogadores profissionais de futebol ganham cifras incompatíveis com a realidade da maioria das populações. Transformados em máquinas de fazer dinheiro pelo talento – para si próprios, seus agentes, patrocinadores e clubes – criaram dois mundos. O real, deles, e o real, nosso.

O disparate é tamanho que nos surpreendemos quando medalhões da medicina com anos de estudo e especializações várias cobram por uma consulta R$ 500,00, ou até mais. Uma irrealidade para um país como o nosso com um sistema de saúde pecaminoso. Irrealidade também, o fato de medalhões da bola receberem várias vezes aquela quantia por terem ganho apenas um jogo. E enquanto isso, os educadores em nosso país são abandonados à própria sorte, sem qualquer reconhecimento e apoio para formar gerações.

Talvez por tudo isto o Brasil ocupe o desonroso quarto lugar no ranking latino americano da desigualdade social, atrás de Guatemala, Honduras e Colômbia. Como já definido por um intelectual: “muito para poucos e pouco para muitos”. Apesar da proclamada pujança – agora nem tanto – de nossa economia.

O marketing agressivo das indústrias, transformando em produto tudo que se possa imaginar, com impostas inovações a todo o momento vem levando as pessoas a se tornarem reféns de seus motivados desejos. Possam elas, ou não, arcar com os custos inerentes.

Mas aos meus olhos o que choca é o descaso, o conformismo com as distorções, a aceitação pacífica da desigualdade, a contribuição – nem um pouco gratuita – para a ostentação que confronta as necessidades básicas. Abra-se uma revista, acesse-se um portal na internet, lance-se um olhar ao redor, e o bombardeio de apelos consumistas impressiona. Estabelece-se um embate entre os que podem e os que anseiam sem poder. Abrem-se as trilhas para o estímulo à corrupção, envolvimento desde cedo com atos ilícitos geradores de riqueza fácil, adesão ao crime organizado.

A velocidade da informação sobre tudo que nos cerca, difícil de ser assimilada em sua essência pelo volume e pluralidade, nos faz perder a noção de valores intrínsecos ampliando o fosso da desigualdade, criando castas.

Estamos nos transformando em seres informatizados, comprando virtualmente, acessando facilmente a comunicação eletrônica, com pouco ou nenhum tempo para formar juízo. Em breve, quem sabe até, não mais lhe perguntarão quantos anos você tem, mas sim, quantos bytes você tem.

Pedalar é preciso

Bogotá, quase 8 milhões de habitantes, capital da Colômbia. Graças a uma matéria do excelente e laureado jornalista e escritor Gilberto Dimenstein, tomei conhecimento de entrevista concedida por Enrique Peñalosa, ex-prefeito daquela cidade entre os anos de 1998 e 2001.

Além do respeito e admiração que dedico ao trabalho de Dimenstein, pareceu-me oportuno pegar uma carona sobre o que vi e ouvi em um vídeo, para inspirar-me sobre algumas questões relativas às cidades em que vivemos.

Caso tenha interesse em conhecer a visão e ação desse homem que contribuiu para aliviar a pressão exercida pela ditadura dos automóveis nas ruas da capital colombiana, acesse o link http://folha.com/no1109672 e assista a um vídeo com este personagem, a meu ver, especial. No mínimo, poderá constatar como foi possível criar-se em uma cidade, então caótica, mais de 300 quilômetros de ciclovias, entre outros sucessos.

Nosso governo, procurando estimular a economia, diante de um “pibinho” preocupante, abre as comportas do crédito para, inclusive, estimular a venda de mais automóveis. Para o governo, as ruas saturadas de carros, os congestionamentos estressantes, a poluição crescente, o comprometimento da saúde física e mental das pessoas, são ônus sem importância, pois o importante mesmo  para ele  –  governo – é realizar resultados econômicos imediatos. Produzir mais automóveis gera mais emprego, que gera mais consumo, que gera mais impostos para os cofres do governo. Questionável!

Uma sociedade já endividada pelo excesso de crédito farto para compra de bens duráveis subsidiados, casa própria e até mesmo supérfluos adquiridos em longo prazo, não tem muito mais a contribuir. Com a inadimplência crescendo, o modelo parece estar se exaurindo. Mas parece que, finalmente, o governo resolveu abrir o seu cofre também. Já era tempo.

O automóvel, sonho de consumo e status para a maioria das pessoas, não pode mais reinar absoluto. Ocupa espaço vital nas ruas e estacionamentos, espaços que poderiam ser usados para a melhoria da qualidade de vida com praças, áreas de lazer, conforto social. O assunto, mais que debatido por minorias da sociedade é antigo e aqui estou eu a chover no molhado… Não importa, sou minoria mesmo, aguardando investimentos no transporte público de qualidade e abertura de ciclovias.

Assim, creio ter chegado o momento para uma reflexão e ação madura; que apenas terá sucesso se e quando adquirirmos consciência sobre as prioridades visando uma vida mais saudável. Para tanto é prioritário romper-se com a ditadura econômica imposta por governos e enfrentar-se a poderosa indústria automobilística que nos vende produtos a preço de ouro.

Viva a bicicleta!

« Publicações antigas Novas publicações »

© 2017 PONDERANDO

Desenvolvido por CS ProjetosRolar para cima ↑