PONDERANDO

* * * Reflexão em 120 segundos * * *

Tag: Brasil (Página 2 de 15)

“A coisa por aqui tá preta”

A coisa por aqui tá pretaParodiando Chico Buarque, “a coisa por aqui tá preta”. Estamos vivendo dentro de uma bolha de condições adversas construídas por seres ditos inteligentes: nós! “O aquecimento global poderá agravar, significativamente, a pobreza no mundo, ao secar os cultivos agrícolas e ameaçar a segurança alimentar de milhões de pessoas”, adverte o Banco Mundial. E acrescenta, em tom particularmente alarmista: “em três regiões do planeta – América Latina, Oriente Médio e Europa Oriental – o rendimento dos cultivos de soja podem cair de 30% a 70% no Brasil, enquanto metade das plantações de trigo na América Central e na Tunísia pode desaparecer”.

Esta calamitosa situação vem se arrastando desde meados do século passado e tem sido tratada pelos maiores poluidores de nosso habitat – China e Estados Unidos – com desdém. E o Brasil também colabora, contribuindo via desmatamento e desertificação da Amazônia. O aquecimento global nada mais é que a conta enviada pelo planeta como cobrança de ações inconsequentes do homem que vem priorizando razões exclusivamente econômicas, em detrimento da saúde de mais de 7 bilhões de pessoas e suprimento de alimentos para saciar a fome de cerca de 1 bilhão de desnutridos. A ironia dessa situação: o número de obesos é de 1.5 bilhões de pessoas. Logo, 15% da população mundial passam fome e 20% estão obesos.

Os maiores bens que a humanidade teve ao seu dispor – gratuitamente e por séculos, água impoluta e ar puro – se tornaram escassos e artigos de primeira necessidade. Nossos olfatos e paladares já não mais se lembram dos “produtos originais”, imprescindíveis que sempre foram para manutenção da saúde dos bípedes dotados de massa cinzenta e espécies de todas as classes.

Estamos a nos defrontar com uma realidade sombria, qual seja: a de sobreviver neste planeta de solo fertilizado por agroquímicos, água disponibilizada por lenções freáticos e rios contaminados, ar rico em dióxido de carbono. Não há como se culpar apenas governos irresponsáveis onde o ministério mais importante para sua governança é o da Economia, relegando os da Educação e da Saúde à terceira classe.

Somos todos responsáveis pelo que aí está!

Temos sido coniventes com o caos, optado pela omissão junto aos governos e compactuado com a inversão de valores que deveriam levar o ser humano a desfrutar de uma vida mais saudável, de maior bem estar. Governos de potências industriais têm consciência disso e nos exploram. Como há anos, vêm explorando o universo a procura de “bens” que possam mantê-los poderosos no melhor estilo dos navegadores e desbravadores dos séculos XV e XVI.

O sonho não acabou

O sonho não acabou 2A Petrobrás, empresa estatal de economia mista cujo acionista majoritário é o governo, operando em 25 países no segmento de energia, prioritariamente nas áreas de exploração, produção, refino, comercialização e transporte de petróleo, gás natural e seus derivados, há cinco anos foi considerada a 12ª maior empresa do mundo, em termos de valor de mercado, segundo o Financial Times, da Inglaterra. Hoje, ocupa a 120ª posição.  
 
 A empresa, envolvida em um “imbróglio” (do italiano: confusão, trapalhada) de corrupção jamais vista neste país, faz do mensalão – lembra-se dele? – café pequeno. Como as investigações se encontram ainda no início e parecem ser para valer, o poder Executivo e seu partido encontram-se em situação desconfortável, para dizer o mínimo. Com a prisão de ex-diretores da estatal, presidentes e altos executivos de empreiteiras, alguns já gozando do benefício da delação premiada, o resultado final ainda vai demorar e poderá, inclusive, abranger outros segmentos controlados por partidos da base aliada do governo, como o do setor elétrico por exemplo. Espere-se por tempo instável sujeito a chuvas, trovoadas e, principalmente, desmoronamentos!
 
 Esta é a primeira, maior – e talvez única – chance que o país tem para provar, a quem quer que seja, sua capacidade de fazer com que leis possam ser aplicadas com isenção, sem intromissões governamentais, de natureza política ou de partidos que visam exclusivamente seus interesses “coronelistas”. A imprensa sadia, descompromissada, e a sociedade mais politizada, educada, preocupada com os destinos do país, dentro de um mundo cercado por incertezas econômicas, bélicas e sociais de toda ordem, precisam se dar as mãos na perseguição aos valores que tornam qualquer nação respeitada e magnânima.
 
 Os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário estão sendo submetidos – diante dos olhos de sua sociedade e do resto do mundo – a provas de competência, lisura, ética, comprometimento com uma verdade a ser vigiada até que se transforme este escândalo, com repercussão além fronteiras, em exemplo de conduta ilibada e democrática das instituições nacionais.
 
 Não permitamos que este país se torne uma terra arrasada, dominada por homens acobertados por conivências espúrias de poderes constituídos que se julgam acima das leis e dos princípios que regem um sistema político – isento – dos povos livres. É chegada a hora de educarmos as novas gerações dando-lhes uma demonstração sobre democracia plena. Às mais antigas, que o sonho não acabou!   

Quem tem medo de Ayn Rand?

Quem tem medo deDepois de encerrada a votação no último domingo, fui assaltado por um sentimento de frustração inusitado. O número de abstenções, votos nulos e brancos, atingiu a marca de 37 milhões. Eram cidadãos aptos a votar conscientemente (27% do total), mas que não o fizeram e poderiam ter feito a diferença.
 
Mas números são números e economistas, cientistas políticos e analistas, gostam de fazer contas. Salvo erro na aritmética, o percentual de brasileiros que não votaram na candidata vencedora do pleito foi de expressivos 62%. Não fosse o voto obrigatório – aberração maior de nosso sistema eleitoral – e esse número seria, possivelmente, ainda maior. Significa dizer que, realmente, apenas 38% dos eleitores elegeram a primeira colocada. E agora, qual a leitura a ser feita?
 
Ayn Rand, filósofa, escritora, dramaturga, nascida na Rússia, cidadã norte-americana, falecida em 1982, assim se manifestou, em 1920, sobre a “ineptocracia”: “Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada”.
 
O sistema político-eleitoral que aí está terá que se adequar à realidade atual para que uma eleição possa ter como resultado não apenas números representativos de vencedores e vencidos. O recado dado em 26 de outubro passado pode ser visto cristalinamente ou, como preferem alguns, miopicamente. Espero que o alerta feito por Ayn Rand no início do século passado, mas tão atual, não se materialize por aqui e que nossa sociedade não esteja, ainda, condenada.
 
Mas, pensando nas tão alardeadas mudanças, quem levou o troféu já se manifestou, na primeira hora, colocando a reforma política como prioridade absoluta. Sugere a eleita que se faça um plebiscito, talvez esquecendo que, em 9 julho de 2013, o Congresso Nacional já se recusara a aprovar proposta igual. E mais: já no “dia seguinte” (segunda-feira, 27), o presidente do Congresso – Renan Calheiros (PMDB-AL), assessor de Fernando Collor, então candidato à presidência em 1989 – aliado do governo, sinalizou ser taxativamente contrário à medida.
 
 Tudo como dantes no quartel de Abrantes. Estaria Ayn Rand coberta de razão?

Mais um passo…

Durante algumas décadas, em meados do século passado, um badalado colunista social carioca, talvez o primeiro de tantos que vieram depois, ficou famoso por sua história de sucesso. Ibrahim Sued, esse o seu nome, filho de imigrantes árabes, não vinha de nenhuma linhagem, muito pelo contrário, fez seu caminho abrindo todas as portas com persistência, enfrentando desafios com a garra que lhe era peculiar. Vindo do nada, com escolaridade limitada, determinação incomum, venceu em um ambiente com muitos degraus acima do seu. Uma admirável, guerreira e saudosa figura.

Ibrahim é um dos inúmeros personagens que a vida coloca no circuito e que conseguiram chegar “lá” enfrentando todo tipo de desventuras e preconceitos. E a história, ao longo dos tempos, está repleta de narrativas sobre desbravadores que à custa de muito suor e lágrimas – às vezes até sangue – perseguiram seus ideais e lutaram pela sobrevivência, sem esmorecimento diante das adversidades.

Holambra também tem sua história – belíssima história – que nos remete à saga daquela gente que após enfrentar a destruição e o desalento em sua terra natal, ao fim da segunda guerra mundial, buscaram refúgio e um porvir de esperança nesta que é hoje a terra que nos abriga. Foram 43 anos – desde 1948 – de tentativas de sobrevivência digna, confrontando frustrações, sucessos e desapontamentos, mas com um final feliz. Os pioneiros – assim eram conhecidos – e os brasileiros aportados por aqui, conseguiram domar a terra, fazê-la progredir e, em 1991, emancipá-la – mediante referendo popular – permitindo sua municipalização. Já lá se vão 23 anos desde então e as imagens que ficam – para aqueles que viveram parte dessa história – permanecem indeléveis.

Holambra está de parabéns por ter se tornado uma ilha ainda protegida da violência exacerbada que impera pelo país afora. Pelo seu desenvolvimento ordenado, dentro das possibilidades que o ser humano, com seus anseios, permite. Assim devemos, todos, ser eternamente gratos àqueles que abriram o caminho árduo para que pudéssemos, desde a emancipação, desfrutar do bem-estar que, talvez sequer tenhamos consciência de sua preciosa presença. Um privilégio!

A história de Holambra merece fazer parte do curriculum escolar numa demonstração clara de que elas, as crianças de hoje, desfrutam da oportunidade de viver em uma terra abençoada por obra e graça daqueles que, antes, vieram de muito, muito longe, desprotegidos de tudo que hoje lhes é oferecido.

Aos pioneiros – holandeses e brasileiros – que já nos deixaram e àqueles que conosco ainda convivem, nossa gratidão.

Em compasso de espera

Pretendo não pensar em política até a hora de votar, no domingo, 26. Não se trata de tarefa fácil, pois ao assistir a qualquer noticiário ou ler manchetes de jornais e portais da internet – passando por inúmeras colunas desfiando prós e contras às candidaturas – fico sem muito espaço para curtir qualquer outro assunto em primeira mão.

O futebol brasileiro anda insosso e apenas aquele jogado na Europa desperta algum interesse com jogos de nível. A referência é feita para tentar minimizar um pouco as notícias catastróficas sobre o vírus ebola que começa a se espraiar fora do continente africano, sobre as atrocidades que vem sendo cometidas pelo Exército Islâmico no Iraque e na Síria, sobre a corrupção desenfreada por aqui – atingindo até a polícia em níveis de oficiais em comando. Um verdadeiro rosário, infindável. Esclareça-se, no entanto, que não se trata daquela fileira de 220 pequenas contas dispostas de maneira sucessiva, representando cada uma delas uma oração…

Por outro lado, conforta-me assistir a alguns documentários na TV paga, todos de altíssima qualidade, instrutivos, que me ajudam a tomar consciência sobre o quão pouco sei de nada. A internet, se bem utilizada para pesquisa de informações visando o aprimoramento do conhecimento, é um instrumento – ferramenta, segundo alguns – dos mais poderosos para abrir nossas cabeças. Mas parece que anda se prestando mais para fechá-las pelo uso que boa parte dos internautas têm feito dela.

O facebook, por exemplo, pode e deve ser usado como veículo de comunicação e divulgação instantânea – apesar de não poucos dele se utilizarem para autopromoção e exposição. Mas muitos, também, são os posts de gabarito colocados e que merecem ser curtidos e compartilhados. Assim, me permito não perder esta oportunidade para divulgar um – extraordinário – que ouriçou minha alma verde-amarela: https://www.facebook.com/video.php?v=533186996826991. Vale a pena ser acessado por aqueles que apreciam a beleza de corais espetaculares.

Neste momento, existem milhões de brasileiros que não dispõem de recursos para terem a TV por assinatura e, muito menos, conectar-se à internet. A eles só cabe assistir, portanto, aos programas eleitorais gratuitos e agirem apenas como receptores de informações produzidas por profissionais de um marketing nem sempre honesto. Formam seus juízos a partir de então, sem qualquer questionamento ou possibilidade de buscar alternativas para discussão das versões divulgadas. Muito pouco para uma democracia plena.

Incongruências de nossa política.

Não se omita

Renomados colunistas de política prognosticam que o segundo turno da eleição será uma “carnificina”.  Imaginei que fora exatamente isso que já ocorrera nas campanhas para o primeiro turno, mas pelo visto – e ingenuamente – enganei-me, o que me deixa um tanto surpreso. Quero crer que o mais elevado nível de absenteísmo, votos nulos e brancos desde 1998 – 29% – nesta primeira fase do pleito, seja um reflexo da pancadaria assistida por milhões de eleitores cultos, incultos e ocultos. O prognóstico dos articulistas especializados, lamentavelmente, dá uma dimensão do país em que estamos vivendo.

O voto é o mais democrático dos instrumentos a ser utilizado por cidadãos que querem ter sua voz ouvida. Ao se calarem, através de uma das três formas mencionadas, refletem o desânimo, a descrença, a apatia, com que expressiva faixa da população apta a votar se manifesta surdamente. A julgar-se pelos diversos movimentos ocorridos desde o ano passado, todos clamando por mudanças em segmentos os mais diversos de nossa sociedade, a constatação nos leva a acreditar que a classe política está falida. Partidos sem ideologia, candidatos descompromissados com o futuro do país, alianças – no mínimo espúrias – comprometidas nos estados, mas em colisão frontal a nível federal, fortunas desconhecidas bancando (investindo?) todo tipo de candidatura. Esta é a realidade a que estamos assistindo.

O ceticismo demonstrado no primeiro turno pode ser espelhado no fato de que a porcentagem dos “omissos” superou aquela da terceira colocada na corrida presidencial (21%). Se minha aritmética não estiver equivocada, como o número de eleitores no país é de 142 milhões, os ausentes somam pouco mais de 42 milhões de votantes aptos a exercer seu direito cívico, mas não o fizeram. À exceção da Colômbia, o número expressado é superior ao da população de qualquer outro país da América do Sul. Uma lástima!


Mas como cidadão esperançoso e preocupado com o futuro do país espero, quem sabe, por um pequeno milagre onde as partes (ainda beligerantes…) se desarmem e ofereçam à população propostas, sim, propostas, que possam desanuviar um horizonte que se prenuncia obscuro, dando-lhe a oportunidade de continuar acreditando nas instituições democráticas brasileiras.

Não se omita!

Por que voto em Marina Silva

O que mais preocupa não é o grito dos violentos, dos corruptos, dos sem caráter, dos sem ética.
O que mais preocupa é o silêncio dos bons (Martin Luther King)

A propaganda eleitoral do governo para reeleger a presidente da República este ano desandou. Com porteira aberta brindando a falta de ética, ausência de lisura, valorizando a calúnia, perdendo até as estribeiras nesta vergonhosa campanha, o governo tem dado demonstrações de que vale tudo em nome de preservar sua continuidade no poder. Terrorismo político!

O partido instalado em Brasília há 12 anos, com sua poderosa máquina infiltrada em todos os nichos governamentais e não, se sente ameaçado em sua continuidade e projeto de poder. O projeto: manter-se no governo indefinidamente começando por permanecer na cadeira até 2026, com Luiz Inácio após o término do governo de Dilma Rousseff, se esta vier a ganhar as eleições em outubro. Período mais longo que o da última ditadura militar. Uma temeridade!

Impressionam-me os diversos argumentos acusatórios à candidata Marina. Atrevo-me a analisar três dos mais contundentes:

  • Marina não tem experiência. Bem, todos os que ocuparam a presidência da República nos últimos anos eram políticos experientes. O primeiro que governou por dois mandatos consecutivos – sem emprego fixo durante décadas – herdou do governo anterior uma herança “bendita” que, dada sua dificuldade com a língua portuguesa, qualificou como “maldita”, mas se beneficiando de iniciativas já implantadas e que permitiram ao país se superar. A segunda, produto de seu mentor, Luiz Inácio, com “larga experiência político-administrativa” encerra seu mandato deixando o país em frangalhos: economia estagnada, inflação altíssima, PIB vergonhoso (quantos dos eleitores conhecem seu significado?), balança comercial em queda, preços dos combustíveis e de energia elétrica represados – mas a implodirem os orçamentos dos cidadãos em 2015 – infraestrutura inexistente, bancos deitando e rolando com lucros estratosféricos pela cobrança de taxas extorsivas fruto de catastrófica gestão econômica, diplomacia externa desastrosa. A parcela da população que não lê e ignora tudo isto não é pequena, além de fazer parte daquela denominada “nem nem”, ou seja, nem estuda nem trabalha. As bolsas de todo os tipos estão aí mostrando e demonstrando que é melhor receber o peixe pescado que ser ensinado a pescar.
  • Marina é ligada aos banqueiros. Balela! Os lucros dos bancos brasileiros desde o início do governo de Luiz Inácio são de causar inveja àqueles do primeiro mundo. Para que se tenha uma ideia, a soma do lucro registrado por quatro bancos brasileiros em 2013, que chegou a cerca de US$ 20,5 bilhões, é maior que o Produto Interno Bruto (PIB) estimado de 83 países no mesmo ano, segundo levantamento feito com base em dados do Fundo Monetário Internacional (FMI). Nunca lucraram tanto como nos últimos 12 anos. Bancos que deveriam ser taxados pesadamente pela Receita Federal são poupados enquanto até aposentados recebendo merrecas no fim do mês o são. Quem é chegado aos bancos?
  • Marina tem uma aparência que demonstra fragilidade. Mahatma Gandhi, também tinha. E quebrou o domínio do imbatível Império Britânico, na Índia, para sempre, em 1947. Para quem foi alfabetizada aos 16 anos, cursou posteriormente uma faculdade, foi ministra de Estado e senadora da República por méritos próprios, nada falta para governar este país. Belo currículo para quem não tem experiência. Lembrando sempre que o que sua aparência não revela é a seriedade com a coisa pública, a ética na política e vida privada, princípios e valores inquestionáveis. Quais os predicados dos demais candidatos?

A massa do povo brasileiro não acompanha o noticiário econômico e político, pois não tem o hábito da leitura – quando sabe ler – e toma suas decisões “pelo que ouviu falar”. Pela boca dos outros, no melhor estilo de tempos idos quando o povo da comarca tomava conhecimento das notícias durante o sermão dominical do padre da paróquia. Com direito à versão paroquial dos fatos noticiados e sem contestação. É o que o horário gratuito na TV vem fazendo com milhões de brasileiros sem qualquer espírito crítico.

O continuísmo é nefasto. Países como Iraque, Afeganistão, Líbia tiveram o continuísmo ceifado pela base. A Síria se sustenta não se sabe até quando. Países mudam rapidamente suas economias, políticas internas, aliados comerciais e bélicos. Gerações avançam no tempo; a caducidade se apresenta como a mãe do retrocesso.

Esqueçamos que o palhaço e hoje deputado federal Tiririca recebeu mais de três milhões de votos nas últimas eleições; esqueçamos que a Policia Federal tenta ouvir Lula há sete meses sobre o mensalão e não consegue; esqueçamos que o congresso nacional está corroído por acordos indissolúveis; esqueçamos que a maior empresa brasileira – Petrobrás – tem uma gestão lesiva aos acionistas minoritários e assiste impassível aos “malfeitos” de milhões de dólares.

Por tudo isto, e um pouco mais, meu voto é da Marina.

Sejam bem-vindas

No início deste ano escrevi sobre o tema “mulher” em artigo cujo título era “Vieram para ficar”. Agora, com eleições à vista, não surpreende que a participação de candidatas concorrendo a postos eletivos tenha crescido expressivamente, se comparado a 2010: é 46.5% maior o número de mulheres disputando um cargo nas eleições gerais deste ano
.
Nenhuma surpresa, eis que o sexo feminino já vem preenchendo mais e mais espaços, antes ocupados pelos que fazem uso de barba e bigode no âmbito empresarial. Em presidências e diretorias de corporações, nos Estados Unidos chegam a ser as mais bem remuneradas em alguns setores. Por aqui começam a pipocar!

A política vem atraindo o interesse daquelas que, acredito eu, desencantadas com o desempenho do sexo oposto na arte de governar e legislar – com vários “artistas” em cena – estão se dispondo a concorrer a cargos políticos para colocar um pouco mais de ética e probidade no meio mais que devassado.

É verdade que as mulheres ainda são minoria expressiva nesse âmbito. Apenas oito países registram ao menos 40% de mulheres no parlamento: Argentina, Cuba, Finlândia, Islândia, Holanda, África do Sul, Ruanda e Suécia. Na compensação, em 2009 seis países ainda não tinham nenhuma mulher no parlamento: Belize, Estados Federados da Micronésia, Omã, Qatar, Arábia Saudita e as Ilhas Salomão.

A contrapartida é que muitas já se fizeram respeitar pela competência com que vem desempenhando seus cargos, até mesmo ocupando o posto máximo do poder em seus países. Destaque para a chefe de governo (chanceler) Angela Merkel, da Alemanha, maior potência da Europa. Com doutorado por sua tese em física quântica, tem demonstrado invejável capacidade de governar seu país – desde 2005 – sendo considerada, hoje, pela revista Forbes, a segunda pessoa mais poderosa do mundo.

Em termos de Brasil, a pergunta que alguns podem fazer é: levando-se em consideração todos os aspectos da natureza humana, estariam as mulheres mais preparadas que os homens para enfrentar o canto da sereia da corrupção (mazela da política nacional)? Questão para um debate interminável. Na minha vida profissional, sempre as identifiquei como seres de maior sensibilidade, intuição aguçada, sexto sentido diferenciado. A própria maternidade – para um xeque-mate – as tornam criaturas diferenciadas. Assim…

Como bem escreveu Cora Coralina: “Eu sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida removendo pedras e plantando flores.” Imagem para ponderação de nossas bancadas femininas nos legislativos de todo o país.

Desafio ao Congresso Nacional

O destino de 202 milhões de brasileiros é decidido por 594 compatriotas que se permitem viver no mundo do escambo, regiamente remunerados – cujos valores você e eu jamais saberemos com exatidão – comprometidos com seu (deles) bem estar financeiro e pessoal, fazendo barganhas que fariam corar um monge tibetano, desfrutando de imunidades qualificadas como parlamentares.

Não podemos culpá-los, absolutamente, por estarem frequentando as duas Casas do Congresso, pois fomos nós que os colocamos lá. Ou melhor, fomos obrigados – por bem ou por mal, conscientes ou sem alternativa – a elegê-los para nos representar como cidadãos. Mais que um direito constitucional, no caso brasileiro uma obrigação! Ressalve-se que entre as 15 maiores economias do mundo o Brasil é o único país no qual o voto é compulsório.

Eleições realizadas sob o regime de voto obrigatório, a cada biênio, não expressam a vontade autêntica da população. A imensa massa do povo não é politizada e sofre influências, principalmente, do nefasto horário político eleitoral gratuito (gratuito?) e bombardeio subliminar da propaganda eficiente através de todas as mídias. Aquela velha história “você se recorda em quem votou nas últimas eleições?” permanece sempre atualizada, com exceção dos votos dados a candidatos à presidência da República.

Há décadas ouvimos falar em reforma política, especialmente quando as mazelas da ora praticada (política) escancara os descalabros praticados por políticos em todos os arraiais. Durante o ano todo surgem aqui e ali desvios de conduta praticados por aqueles que mereceram a confiança de incautos eleitores. Não são poucos nem insignificantes os desvios, assim como minúsculas são as punições quando e se apanhados com a boca na botija e após anos de idas e vindas transitando processos pelo lento judiciário brasileiro.

Desde 1824 vem o país sofrendo com constituições – sete no total – dotadas de progressos e retrocessos por regimes fechados ou democráticos. E desde 1932, com o Código Eleitoral de Getúlio Vargas, foi instituída a obrigatoriedade de votar em eleições. Aberração que permanece até hoje e em nenhum momento pensada em desobrigar o cidadão da imposição.

Se pretendermos ser um país realmente democrático como tantos que não obrigam seus cidadãos a votar – mas outorgam-lhes o direito de fazê-lo por livre e espontânea vontade – já é passada a hora de a sociedade, imprensa, órgãos defensores dos direitos humanos, você, se manifestarem e se fazerem ouvir no Congresso Nacional em alto e bom tom: voto obrigatório, não! Livre direito de escolha, sim!

Aí, quem sabe possamos ir buscar a vaca lá no brejo!

Desencanto com a política

O clima de eleição está correndo solto com o anacrônico sistema de horário político gratuito a pleno vapor, apresentando personagens caricatos e muito palavreado inútil dos principais atores ao lerem na TV – com cara de paisagem – tudo aquilo que seus marqueteiros escreveram.

Temos assistido à tentativa de desconstrução de imagens, a aplicação de golpes rotineiramente utilizados em situações de desespero, à falta de ética habitual num vale-tudo que visa, exclusivamente, chegar ao poder ou simplesmente mantê-lo a qualquer preço.

Políticos e aspirantes se filiam a partidos por conveniência e tanto eles como seus eleitores não guardam qualquer afinidade com e desconhecem a filosofia e princípios que norteiam a existência dos ditos; talvez apenas um ainda sobreviva com cores desbotadas pelo tempo e objetivos distorcidos.

Seriam estas algumas das razões que contribuíram para o desinteresse de jovens entre 16 e 18 anos em votar? Pelos dados do TSE –Tribunal Superior Eleitoral – houve uma expressiva redução de 31% no número dos aptos a votar naquela faixa de idade – se comparado aos números de 2010 – mas que abdicarão de seu direito por motivos diversos. Entre os principais, a descrença no “sistema” e nos políticos. Ao acompanharem, ainda que à distância, como se faz politica neste país, não surpreende o desinteresse demonstrado.

Para exercer a cidadania é preciso primeiro conhecê-la, aprender como exercitá-la! Mas, infelizmente, não faz parte de nossa cultura tornar familiar aos jovens e cidadãos outros, desde cedo, quais os seus direitos e deveres civis, políticos e sociais estabelecidos na Constituição. Quero crer, inclusive, que a maioria de nossa população de 202 milhões brasileiros sequer saiba o significado do termo cidadania.

Os jovens que nasceram em meados dos anos 90 cresceram em um mundo que se desenvolveu – sob todos os aspectos – a uma velocidade assustadoramente alta. Hábitos e costumes sofreram uma revolução desde então e as cabeças dessa moçada estão anos-luz à frente daquelas dos políticos que no congresso brasileiro “trabalham” de terça a quinta feira e têm férias de um mês em julho e mais um tanto entre o Natal e 1 de fevereiro do ano seguinte. Vergonha internacional!

Jovens mudam de faixa rapidamente e suas cabeças se encantam e desencantam com a mesma facilidade. Talvez seja por isso que na política brasileira não tenhamos encontrado – nas últimas décadas – líderes expressivos capazes de levar e conduzir ao debate as questões fundamentais para o desenvolvimento do país buscando alternativas que permitam alternância maior nos poderes executivo e legislativo.
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