PONDERANDO

* * * Reflexão em 120 segundos * * *

Tag: Saúde (Página 1 de 3)

Seu direito ao silêncio foi usurpado

Vivemos tempos conturbados ou mais conturbados. Informações de toda ordem são substituídas a cada instante se avolumando como em um caleidoscópio. Digeri-las em tempo hábil – e conscientemente – não é tarefa fácil. Entre as mais notáveis estão os descompassos entre a mãe natureza e o bicho homem. Fenômeno que vem se exacerbando e não é de hoje.

Desde os anos 80 e mais acentuadamente dos anos 90 para cá, os desequilíbrios ecológicos se fazem sentir com profundas perturbações climáticas, maior atividade dos vulcões, crescimento de tensões e conflitos no mundo e, principalmente, aumento geral de comportamentos desviantes nas pessoas. Não se trata de conjecturas, mas sim de ocorrências observadas pelos mais atentos.

Dentro desse comportamento desviante cumpre ressaltar o que seria cômico – se não fosse trágico. A Câmara de Vereadores de Holambra aprovou por 6 votos contra 2 projeto do Executivo para – PASME – aumentar o limite de ruído permitido no município. A aprovação, cuja defesa – a partir de premissas absolutamente equivocadas por parte de um de nossos vereadores – desrespeita leis estabelecidas e é mais uma afronta ao cidadão que paga seus impostos e tem direito ao sossego e a preservação de sua saúde física e mental. Os interesses financeiros, econômicos e comerciais falaram mais alto ao tratar de atender àqueles que privilegiam seus livros contábeis em detrimento do bem estar maior da sociedade.

Aos idosos de nosso Centro Social Holandês – referência nacional e exemplo de solidariedade humana -, aos internados no Posto Central de Saúde e aos moradores próximos do Espaço YPÊ – protagonista da infeliz iniciativa do executivo municipal -, só resta sofrer as consequências. Fosse o nosso país povoado por maioria educada, no sentido lato da palavra, e poderíamos almejar que contestações, manifestações legais e legitimas, fizessem valer a lei maior. Mas ainda não atingimos a maturidade para chegar lá.

Admitamos, no entanto, que a culpa por esse descalabro seja de muitos de nós que colocamos todos os responsáveis por essa aberração nos lugares por eles hoje ocupados, mediante voto democrático na eleição que os elegeram.

Mas se não há nada que possa ser feito agora permitamos, pelo menos, que se mantenha viva na memória – indelevelmente – as razões para suas futuras noites de desassossego. E que nas próximas eleições, com um brado retumbante, possa o cidadão holambrense – mediante voto consciente – reverter o triste quadro a ser enfrentado doravante pelo descaso e omissão de quem pode mais.

* Este texto está protegido pela Lei nº 9.610/98 *


Medicina de Risco?

“O Brasil não vai exigir exame nacional de revalidação do diploma de médicos trazidos da exterior para trabalho temporário em áreas com déficit de profissionais da saúde no país. Em contrapartida, esses estrangeiros só poderão atuar nas áreas determinadas pelo governo em periferias e no interior e por período que não deve passar de três anos.”

A informação acima foi divulgada pela imprensa no início da semana como salvadora da pátria de um país carente que vive fazendo malabarismos econômicos para ajudar na campanha eleitoreira do governo. Mais importante que números maquiados pelos economistas do Planalto, colocando em evidência, diariamente, seus feitos e desfeitos, são aqueles que não aparecem – escondidos que são da população – sobre a saúde principalmente.

O doente Brasil, com carência de médicos, hospitais, equipamentos e medicamentos, enfermeiras de alto padrão que não cometam barbaridades em pacientes indefesos, para se dizer o mínimo, esbanja recursos para construção de suntuosos estádios de futebol que virão beneficiar investidores privados agraciados com financiamentos públicos. Se a imprensa brasileira fosse menos comprometida com as verbas palacianas de propaganda você, eu e o resto desse país ainda adormecido em berço esplêndido estaríamos conhecendo uma realidade aprisionada nos intestinos de poucos ministérios.

É notório que o país não possui médicos que possam atender as populações mais necessitadas, distantes dos centros maiores, mas sempre lembradas que são como fornecedoras de votos para cabrestos eleitoreiros. Nossa medicina não possui, aos olhos do governo, quantidade; nem qualidade aos olhos da população. Não é de se estranhar, pois, que 61% de médicos submetidos a exames pelo Conselho Regional de Medicina de SP, recentemente, tenham sido reprovados…  São Paulo! É possível que você desconheça esta realidade, mas não seria surpresa que já tenha sentido na carne, no corpo ou em sua própria mente o despreparo de quem perjurou ao se formar.

E agora, com esfarrapadas justificativas, o governo vai permitir a entrada de médicos formados no exterior sem qualquer exame de validação do diploma. Inominável! Eu, simples engenheiro de petróleo diplomado nos Estados Unidos, ao regressar tive que ter o dito revalidado pelo Conselho Regional de Engenharia Arquitetura e Agronomia. Porque não os esculápios do além-mar? E note-se que os riscos de causar danos às pessoas e patrimônios por eventual incompetência minha, então, eram infinitamente menores que os possíveis causados pelos jurados de Hipócrates em qualquer tempo e lugar.

Que São Lucas (patrono dos médicos) nos proteja. Amém!

Um olhar atento, por favor!

Existem circunstâncias inexplicáveis na vida de todos nós. Procuramos motivos e razões que justifiquem certos acontecimentos através da ciência, da religião e até mesmo do sobrenatural, por aqueles identificados com o fenômeno.

Um jovem americano, aos dois anos de idade, foi diagnosticado com autismo e prognóstico sombrio para sua qualidade de vida. Colocado em um programa especial de aprendizagem, aos quatro anos, fez terapia para tentar desenvolver suas habilidades e voltar a falar. Mas, depois de um inusitado caminho percorrido, aos 14 anos, Jacob Barnett – este o seu nome – estuda para obter o mestrado em Física Quântica. Aos nove anos, começou a desenvolver trabalhos sobre astrofísica que despertaram a atenção de acadêmicos na Universidade de Princeton, Estados Unidos, trabalhos considerados potenciais ganhadores de um prêmio Nobel futuramente. E mais: aos 11 anos entrou para a universidade, onde faz pesquisas avançadas em física quântica. Alguns especialistas consideram seu QI superior ao de Albert Einstein. Por favor, releia a primeira frase deste parágrafo.

Pessoas que nascem com dons incomuns à luz do conhecimento contemporâneo desafiam aqueles ainda enjaulados em conceitos preconceituosos, presos a preceitos irrefutáveis. Desde que me entendo por gente questiono a forma como somos educados para enfrentar a vida em voo solo. Nossos filhos são educados – salvo honrosas exceções – dentro de um modelo engessado onde raramente lhes é permitido desenvolver habilidades naturais inatas. O comércio do ensino e o comodismo de muitos pais – a quem peço perdão pela ousadia – levam crianças e adolescentes, muitos, a trilhar a estrada de mão única que pressupõe encaminhá-las para uma vida pessoal e profissional de realização intrínseca.

Deixar aflorar um talento inerente a cada indivíduo, independente de sua condição, é tarefa de desprendimento para pais principalmente e educadores em particular. Não se forma um cidadão sem que nele se observe e identifique, desde cedo, seu potencial através do olhar individual e não do coletivo. Prestigiar o talento natural da criança ou jovem – sem qualquer discriminação – permitirá integrá-lo à sociedade como pessoa de bem e como profissional capacitado no disputado mercado de trabalho.

O olhar atento e persistente da mãe de Jacob evitou sua capitulação às “evidências” de padrões preconcebidos ao perceber que atrás de um véu suspeitoso estava presente um ser humano dotado de inteligência superior à nossa, que se revela mediana, quando muito.

A ponderar!

De olhos vendados

Segundo consta, não existem recursos financeiros para enfrentar a calamidade em que se encontra o sistema publico de saúde deste país. São estarrecedoras as imagens a que assistimos pela televisão, quando esta se dispõe a exibi-las desde que não comprometa seu faturamento com a propaganda governamental.

A publicidade dada a eventos patrocinados e de interesse do governo merece grande destaque obviamente, mas aquelas de interesse público maior nem sempre o são.

O deplorável quadro de saúde no país, onde se plantando tudo dá, permanece assustador. Triste exemplo são as informações divulgadas pela imprensa revelando que hospitais particulares de referência em São Paulo, São Paulo atente, exigem horas de espera para atender crianças, muitas em situação crítica. E pior: segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (informação jornalística), “os hospitais estão fechando leitos de pediatria porque atender criança não dá lucro”. Além disso, segundo um diretor-superintendente de hospital especializado em pediatria, crianças geralmente precisam de poucos exames. “Dá mais lucro tratar de câncer.” Meu Deus!

Caso precise de internação então, a criança pode demorar até três dias para obter uma vaga, relatou um funcionário da unidade Morumbi do hospital São Luiz, em SP. E a pedra de cal: dados do Ministério da Saúde mostram que os leitos pediátricos privados foram reduzidos em 14% entre 2011 e 2013.

Existem verbas federais, sim, e de parcerias com entidades privadas, mas para investir na construção de estádios de futebol para a Copa das Confederações, Copa do Mundo, Olimpíadas. Bilhões de reais, não poucos oriundos de nossos bolsos. Com dotações estouradas – 65% a mais que o previsto em 2010 -, alguns empreendimentos já foram cancelados e o dinheiro gasto devido ao “descontrole” orçamentário. Os estádios que vierem a ficar prontos renderão, futuramente, milhões àqueles que têm o direito de administrá-los. Eis que as arenas, como são agora chamadas, poderão vir a ser de multiuso para realização de shows, eventos e espetáculos, com pouco futebol.

Construção de hospitais, postos de saúde, aquisição de equipamentos hospitalares para tornar o sofrimento de milhões de brasileiros, com ou sem bolsas, não são, então, prioritários?

Afinal, que país é esse? O que acontece com os terráqueos deste mundo conturbado? Será que a insensibilidade tomou conta de mentes poluídas por toda sorte de contaminantes levando-as à insensatez absoluta? Custa a crer que esses seres foram, um dia, crianças. Como puderam ser deformados na sua essência para se transformarem em verdadeiros monstros que reluzem apenas sob interesses pessoais abjetos?

A palavra é sua!!!

 

Sem Educação não há Solução

A situação crítica, exasperante, vivida nas últimas semanas por cidades de São Paulo e Santa Catarina dominadas que estão pela violência crescente, insana, desumana, é incompatível com a natureza pacífica do brasileiro. Situação que não permite o alheamento e exige um mínimo de reflexão por todos nós.

Governos estaduais procuram justificar as ações criminosas olhando para o outro lado e tentando minimizar as evidentes deficiências de um sistema anacrônico, falido, de proteção ao cidadão e à ordem pública. Clamamos e proclamamos que Deus é brasileiro, mas as diferenças gritantes em nossa sociedade, mascaradas por uma economia pouco transparente, não priorizam a ordem das prioridades, a começar pela mola mestra da EDUCAÇÃO. Os investimentos na área não são, em absoluto, condizentes com a alardeada solidez de nossa economia. Segundo o governo, faltam recursos…

Não tapemos o sol com a peneira: o aumento de consumo por parte da população, estimulado a todo vapor pelo governo federal, não vai elevar o nível de escolaridade dos brasileiros, adequar escolas públicas em lugares distantes e nem tanto, valorizar professores, incrementar o saneamento básico. Impossível termos mais saúde, melhor formação, maior consciência cívica de nosso povo sem educação de qualidade.

A construção de estádios financiados pelos governos visando a Copa do Mundo de futebol, com duração de apenas um mês, é uma afronta aos que bradam por escolas e hospitais decentes. As primeiras, sem livros, carteiras e instalações condizentes, mas ambas carentes de infraestrutura. Hospitais públicos superlotados, sem remédios, médicos e enfermeiras de alto padrão, desprovidos de profissionais que não injetem sopa ou vaselina nas veias de pacientes desavisados, vitimas da desassistência do poder público, desvelam a realidade. O Brasil não é apenas o Sul e o Sudeste!

Portanto, não creio que possamos desvincular a violência reinante e preocupante da precária educação gerida pelo Estado. Cumpre lembrar que a Constituição federal define, claramente, as políticas para educação e saúde, interdependentes que são. Não há espaço para omissão e negligência.

Subjugar a qualidade do ensino de qualidade e assistência médica compatível com a ausência de recursos desviados para fins eleitoreiros e de sustentação no poder é crime. Crime hediondo! Tão graves quanto os que vêm sendo cometidos contra pessoas indefesas, policiais ou não, e pacientes internados sem qualquer opção.

É tardia a hora de priorizarmos a EDUCAÇÃO neste país!

Brasil, florão da América

O país encontra-se diante de uma oportunidade, única talvez, para corrigir as enormes distorções em sua carente infraestrutura viária, aérea e logística. Os próximos eventos – Copa do Mundo e Olimpíadas – estão a movimentar bilhões de reais de recursos que poderão nos colocar em patamar que faça jus ao título de sexta potência econômica mundial.

Vejo com otimismo o esforço do governo federal – apesar das pedrinhas colocadas em seu sapato por um Congresso pequeno – de tentar oferecer a cerca de 190 milhões de brasileiros uma vida mais digna. Mas vejo com preocupação, também, que modestas verbas alocadas para educação e saúde, esbarram no discurso do Planalto, quando empregos são gerados e a mão de obra qualificada não atende à demanda.  Incoerência.

Com a longevidade humana atingindo patamares inéditos, a preservação da saúde da população passa a ser tópico para ação e não mais reação. Principalmente por aqui, onde mais geladeiras, fogões  e automóveis colocados no mercado com isenções tributárias não substituem a falta de leitos em hospitais públicos, atendimento médico precário e 55.5% de municípios brasileiros desatendidos pelo serviço de saneamento básico.

Estimula-se a gastança e não a poupança. Argumenta-se que o modelo ideal – questionável – de se conceder mais crédito às pessoas que não tem como pagar por mais bens duráveis no momento estimula o crescimento industrial, a geração de empregos, seu status de vida. Meia verdade. Foi exatamente assim que os nossos irmãos do continente norte-americano derrubaram a economia mundial poucos anos atrás. Ainda cambaleante, o sistema não consegue se reerguer. E a diferença crucial é que sua moeda é impressa em casa e o quanto quiserem, deixando a conta para ser paga pelo mundo. Não por acaso sua divida pública é superior a 14 trilhões de dólares.

A crise econômica que assola boa parte do planeta não permite arroubos de posse indiscriminada por lá. Mas para os países com desenvolvimento econômico saudável, todos medidos por PIBs e outros índices, sem levar em conta a necessidade real e qualidade de vida de suas populações, a porteira está aberta. É o nosso caso.

Não há como colher sem plantar. Mas preparar o solo para a colheita exige tempo, conhecimento e investimento. Dispomos de todos, mais que ninguém. Questão apenas de ordem.

Tamanho, no caso do Brasil, é documento. Bem nutrido e saudável, pronto para ser educado, se mostrará rapidamente como um continente, mais que um país. E que país!

Só uma sugestão

O domingo que ficou para trás deixou marcas a muitos. Mesmo para os que não acompanham ou não gostam de futebol, o falecimento de Sócrates, ex-jogador e craque da bola, trouxe tristeza. O apego ao álcool durante boa parte de sua vida, segundo ele próprio, só lhe trouxe desventuras agora conhecidas. Após sua segunda internação por problemas derivados, ao que consta, já havia se decidido a trabalhar – como médico que também era – alertando e orientando sobre os malefícios dessa droga descriminalizada. Infelizmente não teve tempo.

A discussão em torno das mazelas advindas de bebidas alcoólicas, assim como do tabaco, é antiga e provavelmente não terá fim. Os incorporados aos vícios são jogados na rede pela hipocrisia de poderosíssimas indústrias e influentes lobistas cujo único e exclusivo objetivo é o lucro financeiro.

Os filmes das décadas de 40, 50, 60 e até mais recentemente, principalmente os americanos, sempre insistiram em cenas dos atores e atrizes glamourosamente fumando,  transmitindo a idéia do charme, sensualidade e virilidade. Tudo veladamente financiado pelas indústrias.

Lamenta-se, ou lamento eu, que até o esporte esteja contaminado pela máquina. Exemplo claro é o patrocínio de uma famosa cerveja aos jogos de futebol da UEFA na Europa. Propaganda impecável, de altíssimo nível para uma audiência de milhões de telespectadores ao redor do globo, atingindo bebedores e potenciais consumidores.

Os jovens entram no circuito etílico em uma viagem que parece sem volta. Os apelos publicitários, maquiavélicos, chegam a enviar mensagens subliminares induzindo os incautos ao vício cada vez mais cedo. A meu ver, é o caso da associação cerveja com o futebol, esporte viril e apaixonante como o praticado na UEFA.

A verdade é que não existe festa ou celebração sem copo na mão! O cigarro, antes parceiro da bebida, está restrito a ambientes definidos. Uma medida lúcida. Mesmo assim, não morre. Mata!

Ninguém ignora os danos causados à saúde pelo consumo de bebidas alcoólicas ou adesão ao hábito de fumar. Nem mesmo os que deles são dependentes. Exemplos recentes e marcantes das sinistras conseqüências impostas por essas drogas são o próprio Sócrates e o ex-presidente Lula viciados que foram ao longo da vida.

Sócrates não teve tempo de dar início à sua campanha. Lula tem a oportunidade de – com seu carisma e popularidade – enviar mensagens saudáveis à nossa população alertando-a e lembrando-a para eventuais conseqüências do hábito que o levou ao sofrimento do momento. Seria um gesto altruísta, descompromissado com o sistema, eloqüente na sua natureza.

Fica a sugestão.

Entre Picos e Vales

Lembro-me dos tempos de estudante de engenharia quando, para efetuar os cálculos, fazia uso de uma régua de cálculo. Para muitos, o instrumento deve ser desconhecido e pode ser considerado hoje peça de museu. Em meu escritório, juntando quinquilharias (se você não é do tempo da régua não deve conhecer este termo…) guardo nostalgicamente a minha relíquia para a posteridade.

Poucos se dão conta da impressionante velocidade com que as novas tecnologias colocadas à nossa disposição vêm alterando comportamentos e atitudes. A avalanche de novidades em celulares, tablets, TVs, GPS, i-pods, i-pads, carros, computadores, nos fazem sentir como se estivéssemos permanentemente desatualizados, fora de época. Para os que podem e sucumbem aos apelos publicitários, a reta de chegada vai, continuamente, se distanciando.

Se pararmos para pensar, meditar tranquilamente sobre o assunto, chegamos à conclusão de que estamos vivendo momentos alucinantes e de contínua insatisfação com o que já temos.

Humanamente, queremos sempre mais e o melhor. É compreensível e faz parte de nossa natureza. O apelo para adquirir parafernália de toda ordem, colocada à nossa disposição em 10 suaves prestações… sem juros, é quase irresistível. O que me leva a ponderar sobre o caminho que estamos trilhando para tentar saciar nossas necessidades materiais, que deixaram de ser  as básicas para adentrarem nas questionáveis.

A qualidade de produtos industrializados – sejam eles de vestuário, eletro-eletrônicos, veículos e afins – têm sido criteriosamente reduzida tornando sua vida útil cada vez menor. Intencionalmente. Imagina-se que a roda da economia possa girar mais rapidamente se o giro dos bens for aumentado, tornando-os obsoletos em curto espaço de tempo. Economistas argumentam que sim. A que custo?

Mas o fato é que vivemos em um clima de moto-perpétuo priorizando – não raro com certa angústia – o questionável algo mais, inatingível para muitos.

E o grande paradoxo é que neste mundo de extrema contradição, de alta tecnologia, onde tantos têm mais do que necessitam para viver uma vida digna, mais que tantos sequer têm o que comer todos os dias.

Morrer de fome é uma expressão que comumente usamos quando temos muita fome. Para milhões de seres iguais a nós e com as mesmas carências por serem atendidas, significa simplesmente… morrer.

Excesso de tecnologia. Fartura de fome!

Mundos paralelos

Ao longo de nossa passagem por aqui não há quem escape dos infortúnios que nos tornam mais conscientes, por mais paradoxal que isso possa parecer. De uma forma ou outra, são momentos que nos levam à reflexão, ainda que temporariamente. Eis que o tempo tudo – ou quase tudo – apaga. Armazenadas nos recônditos de nosso ser, imagens e sentimentos lá ficam guardadas como marcas indeléveis que contribuem para aguçar nossa percepção no enfrentamento dos propósitos do dia-a-dia.

Aguardadas ou simplesmente surpreendentes, perdas são inerentes à vida e contribuem para nosso crescimento,  desde que devidamente assimiladas – o que não é fácil – dada a propensão inata de nos sentirmos vítimas em situações estressantes.

Não apenas as mais inesperadas perdas nos desequilibram  deixando-nos perplexos e, não raro, perseguindo respostas que realmente não existem. As menos significativas como muitas das  perdas materiais, de um emprego ou financeiras podem trazer abalo momentâneo, mas quase sempre com possibilidades de recuperação.

Parece sensato argumentar que vivemos diariamente em dois mundos reais e distintos. O da rotina, dos projetos, das realizações, e o mundo do inesperado. Neste ponto, você certamente poderá contra-argumentar afirmando ser este um pensamento óbvio. E o é! A diferença reside na realidade entre sermos protagonistas, coadjuvantes ou meros expectadores de momentos traumáticos.

Informados pela televisão ou internet sobre acidentes, catástrofes e violência – vista ou lida a notícia – somos imediatamente levados ao foco seguinte, ficando aquela, real e dolorida para tantos, a ser vivida apenas pelos atingidos diretamente. A sensação de blindagem, dada nossa capacidade de autopreservação emocional, termina por nos isentar de qualquer responsabilidade.

Muitas de nossas atitudes diante do corriqueiro da vida, apesar de conscientes são, vez por outra, afetadas por fatos imprevisíveis que podem transformar nossos destinos em um piscar de olhos. Com sorte e humildade percebemos, apenas então, que não somos magnânimos e vivemos permanentemente em dois mundos paralelos. Situações inimagináveis surgem de repente, sem que se saiba de onde nem porque, podendo nos deixar perplexos diante de uma realidade que até então desconhecíamos.

Alertados, percebemos que alegria, sofrimento e finitude existem para tudo e para todos. As experiências vividas nos oferecem a oportunidade de passarmos a ser mais compreensivos, condescendentes e solidários com pessoas e situações.

Até frente a nós mesmos.

Os exemplos dos Sócrates

O ateniense Sócrates foi um dos fundadores da atual Filosofia Ocidental, nascido em 470 a.C. Segundo historiadores, o filósofo não valorizava os prazeres dos sentidos; todavia, via a beleza entre as maiores virtudes, junto ao bom e ao justo.  Poderia ter evitado sua condenação (beber o veneno cicuta) se tivesse desistido da vida justa.

Passados 2.400 anos, estamos acompanhando de perto o calvário do nosso Sócrates, ex-jogador de futebol, um dos principais artífices da “Democracia Corinthiana” no início dos anos 80, capitão da Seleção Brasileira na Copa de 1982, craque indiscutível.

Consumidor  de bebidas alcoólicas, seu trajeto por este campo terminou por colocá-lo em situação de risco de morte devido à cirrose que corrói o seu fígado. Consciente de seu quadro e possivelmente após ter repensado a vida e seu futuro projeta, agora, trabalhar como médico que também é. Em entrevista semana passada assim se expressou: “Já comecei a estudar, vou trabalhar como hepatologista, principalmente na parte política, da divulgação, da informação, da conscientização sobre a importância dessa questão.”

Muito jovem ainda para nos deixar, este é mais um caso de gente famosa que dispondo de tudo o que deseja – fama e dinheiro principalmente –  encontra seu limite nas barras da saúde comprometida. Muitos, por não suportarem o declínio de suas carreiras ou, até mesmo, durante seu esplendor para suportar a pressão do estrelato e suas armadilhas optam por aliviá-la através do recurso milenar da bebida.

Jovens em todo o mundo bebem cada vez mais, e mais cedo, enveredando pelo alcoolismo social, não raro tendo como exemplo pais e familiares. Alcoólatras em potencial, a ficha só lhes cai quando caem na sarjeta da vergonha, pronto-socorros paliativos, psiquiatras e psicólogos; quando não partem para viagem sem volta.

A coisa mais natural do mundo são fotos de festas sempre publicadas com galeras de copos e garrafas nas mãos exibindo sorrisos e alegria contagiante. Parece que – se não houver o estímulo do inebriante – a diversão não brota. Mesmo na solidão, o combustível alimenta a sensação de saída para momentos difíceis da vida.

Não tenho sugestões a dar para a reversão dessa situação crônica no tecido social. Apenas a crença de que apenas a consciência individual pode levar alguém a discernir entre o que seu corpo e mente precisam para viver uma vida saudável desfrutando, até mais, de tudo que necessitamos.

Saúde não tem preço, dizem. Sua falta tem. E a fatura não é pequena.

Rápido restabelecimento, Magrão!

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