PONDERANDO

* * * Reflexão em 120 segundos * * *

Tag: Sustentabilidade (Página 1 de 4)

Economia de guerra

Houve uma época em que neste país existia uma classe média mais “rica” que a atual. A noção de classe média varia de país para país – e até mesmo entre Economia de guerraregiões dentro do país – não devendo ser, portanto, comparada com qualquer outra.

 Cresci em meio a uma família considerada de classe média. Já tendo percorrido um longo trajeto no calendário e fazendo um retrospecto da “paisagem” desde então, imagens e sentimentos retornam à mente como lembranças que, inevitavelmente, servem de termo de comparação. (Continua…)

Cruzar fronteiras é preciso

Cruzar fronteiras é preciso 1Quase todos nós somos reféns de um sistema que econômica, moral e politicamente condiciona, integra e/ou aliena o indivíduo. Sistema onde a maioria não possui qualquer liberdade de escolha. Ainda que prisioneiros, não são poucos os que procuram usufruir ao máximo das condições que se apresentam, sempre em beneficio próprio e em detrimento dos menos afortunados, vítimas indefesas e inconscientes que são.
 Não fomos convidados a participar dessa sociedade que nos condiciona, integra ou aliena como indivíduos. Fomos, sim, sendo “educados” – sem opção – para conviver e sobreviver em um meio hostil, onde o mito da Esfinge de Tebas – “Decifra-me ou te devoro”- prevalece em todos os sentidos. Certamente há os que – quebrando todos (ou muitos) paradigmas – optam por uma forma de viver em dissonância com as regras – não leis – estabelecidas pelas sociedades.
 Em algum momento da jornada existem os que se dispõem a cruzar fronteiras passando a viver – na acepção da palavra – em consonância com suas crenças e valores. Apesar de bem intencionados e crédulos, muitos nem sempre conseguem arcar com o ônus da mutação, sendo obrigados a se submeter aos rigores do sistema. Outros há, por certo, que abrindo mão das “oferendas” que o dito proporciona, cruzam linhas demarcatórias levando consigo convicções, valores e princípios. Esses, de alguma forma, são aqueles que com o olhar no horizonte das transformações se propõem a viver em um cenário onde economia, moral, política e ética possuem definições pouco palatáveis pelos adeptos do “status quo” vigente.
 Proposta de vida que exige ação, coragem, autoconfiança, determinação. Em um mundo dominado pela incompreensão, revolta, conflitos políticos, étnicos e religiosos, onde o desprezo pela vida humana beira a selvageria, não há como se espelhar nos avestruzes, enfiando a cabeça no buraco cavado pela insensatez.
 O sistema que nos domina e doutrina está falido.
 Mais que fronteiras físicas de países que se abrem para acolher milhões de refugiados em todos os continentes, individualmente temos o livre arbítrio de optar por abrir a nossas (fronteiras) revendo posturas condizentes com a índole herdada. Viver neste planeta – que em nada se assemelha à ilha da fantasia – requer atitudes e reflexão visando encarar realisticamente a responsabilidade que cabe a cada um de nós.
 
 

Um olhar para o futuro

Um olhar para o futuroCom o desenvolvimento tecnológico das últimas décadas, em todos os segmentos de negócios, tudo que era tratado de forma mais humana, de contato pessoal, olho no olho, passou a ser “virtualizado”.  A impessoalidade passou a assumir papel de protagonista no relacionamento com os clientes. Funcionários envolvidos nas diversas atividades, ao se distanciarem, ficaram mais impessoais chegando a tratar clientes – e aqueles em potencial – até com certa apatia. Tentam cumprir com sua obrigação e ponto final. Em todas as áreas.
 
 Houve um tempo em que ser funcionário de banco dava “status” ao indivíduo, além de ser um emprego bem remunerado e confiável, em termos de estabilidade. A instituição era vista como uma grande oportunidade profissional, sua reputação respeitada, sua imagem imaculada. É bem verdade que banco é banco, seu negócio é ganhar dinheiro usando dinheiro dos clientes e, desde que descobriram, faz tempo, que cobrar para guardar dinheiro alheio e emprestá-lo mediante complicadíssimas operações pouco conhecidas dos meros mortais era – e é – um belíssimo negócio. Basta acompanhar os balanços dos ditos para ficar intrigado ao constatar que – em uma economia esfacelada como a nossa – os lucros das “instituições financeiras” chegam a ser vergonhosos.
 
 No comércio o despreparo de inúmeros atendentes é flagrantemente visível. Nos bancos, você é olhado como um número (sua conta corrente) a menos que seu saldo bancário seja privilegiado e investimentos também. Em realidade, hoje não há mais dúvidas que o cliente de banco trabalha para ele de graça realizando, como se funcionário fora, operações que caberiam às instituições realizá-las. O dito, cliente, se tornou de fato e na realidade um operador de terminais eletrônicos com pouco ou nenhum contato interno. Simplificando a vida, é verdade.  
 
 E sem pretender ser pitonisa, arrisco afirmar que – no caso dos bancos – suas agências estão com os dias contados, fadadas à extinção, e que todas as operações passarão a ser efetuadas virtualmente sem qualquer contato humano. Não me surpreenderia, ainda, se o papel-moeda e os cartões de plástico vierem a ser extintos, também em futuro à vista.
 
 Assim, lamento, não pelo desaparecimento das agências, inexorável, mas pelo distanciamento crescente dos contatos olho no olho, frente a frente, no dia-a-dia de nossas vidas. A desumanização do sistema vai de vento em popa e nós… na proa.  
 

Globalização: faca de dois gumes

A partir da segunda metade do século XX a globalização ganhou corpo e se expandiu além das fronteiras da industrialização entre países. É o que se observa nesta Copa do Mundo, com boleiros jogando por seleções de países em que não nasceram. Apesar de a legislação de muitos deles (países) fixarem critérios limitativos à contratação de estrangeiros por clubes de suas Ligas, a verdade é que a naturalização de jogadores tem facilitado o drible das exigências governamentais. São os privilegiados a adquirirem dupla nacionalidade sem grandes dificuldades.

A integração cada vez mais estreita entre economias e sociedades vem alterando o perfil de países, corporações e produtos profundamente. A migração e o desenvolvimento tecnológico, aliados à visão mercantilista de empresas visando reduzir seus custos de produção e, por isso, optando por mão de obra barata em países em desenvolvimento, deram início à dança das cadeiras migratórias. Duas guerras mundiais, desde o inicio do século passado, contribuíram decisivamente para as profundas transformações geopolíticas alterando, consequentemente, as políticas de imigração estabelecidas.

A ONU divulgou, recentemente, que existem cerca de 52 milhões de refugiados em todo o mundo, quase metade delas crianças – 25 milhões – que tentam sobreviver em campos de refugiados com futuro incerto. Enormes contingentes têm sido obrigados a deixar suas casas permanecendo desalojadas em seus próprios países, como na Síria em guerra civil há três anos. Assistimos ainda e quase diariamente a migração de milhares de africanos que arriscam suas vidas, em fuga, viajando em embarcações precárias e superlotadas buscando uma vida de subsistência menos miserável na Europa, continente que já enfrenta problemas xenofóbicos.

Em um passado já remoto, pouco se conhecia sobre a realidade de outros povos. Hoje, a televisão nos mostra (quase) tudo. E a realidade a que assistimos é a de uma vergonhosa condescendência dos governos com um desequilíbrio social insuportável, com um sistema financeiro pervertido, que impunemente desvia recursos destinados à qualidade de vida para projetos de interesse exclusivamente político.

Contrastes cada vez mais marcantes estão a ensejar uma profunda reformulação no pensamento e ação contemporâneos. A migração crescente de milhões de pessoas em busca de melhores condições de vida em outros países reflete, simplesmente, que existe algo de desajustado na politica econômica mundial. Ela é, a meu ver, a mãe de todos os males.

Simples assim

A semana foi aberta com notícias sobre a Copa e tudo que lhe diz respeito, como seria de se esperar. Torrentes de informações, a maioria inútil. Mas como, felizmente, o mundo não para de girar por causa disso, pus-me a pensar sobre realidades que vão muito além do jogo da bola. E eis que me deparo com a notícia a seguir transcrita: Sônia Guajajara, uma das maiores líderes do movimento indígena nacional afirma que Dilma desconhece os índios brasileiros e ignora suas aspirações. “Ela pensa que, para ficarmos bem, precisamos ter bens, chuveiro quente, casa de alvenaria”. “Nossa lógica e nosso modo de vida são outros: qualidade de vida para nós é liberdade, e liberdade é ter nossos territórios livres de ameaças e invasões para produzir sem destruir, como fazemos milenarmente.”

Sou um entusiasta da cultura nativa dos indígenas, sejam eles do hemisfério sul ou norte. Até que o homem branco surgisse para usurpar suas terras de forma violenta, contaminá-los com doenças até então para eles desconhecidas, impor-lhes religiões estranhas às suas crenças milenares, estes irmãos viviam na mais plena harmonia com a natureza e o meio ambiente. Em nome da exploração de riquezas para seus senhores e a conquista de terras visando a expansão de seus territórios – mediante massacres com os ocorridos em ambos os hemisférios – as sociedades ditas civilizadas a tudo assistiram insensíveis às vitórias no melhor estilo de Davi contra Golias.

O homem branco – sempre correndo atrás do que entendeu como progresso – jamais percebeu o antagonismo que se instalara em sua seara, comprometendo lentamente a verdadeira razão de viver com qualidade, aquela de que dispomos de apenas uma: a vida. O homem se revolta contra o ar poluído que respira, a água impura que por falta de alternativa é obrigado a beber e por ela pagar, ingerir o alimento que não nutre, o barulho atordoante que o cerca por todos os lados, a falta de espaço que lhe tolhe a liberdade, o medo permanente de ser roubado que o mantem enjaulado em suas casas e automóveis, o tempo perdido para se locomover em suas máquinas de última geração.

Mas sua revolta sem sentido é fruto de sua escolha. Optou por fábricas poluidoras para atender às suas expectativas de consumo, enfrentar a insegurança das cidades onde o inimigo não é o urso polar do continente norte americano nem os animais selvagens de nossas florestas. A ameaça vem de seu semelhante que busca ter mais, obrigado a pagar por tudo aquilo que a natureza colocou a seu dispor gratuitamente. Simples assim.

 

E que não se culpe São Pedro

Este ano o país enfrenta severa escassez de água, gerando, inclusive, problemas para o fornecimento de energia via hidrelétricas que não conseguem atender a demanda e levando o governo a fazer uso de usinas termoelétricas. Como resultado, o custo da operação do sistema tem subido vertiginosamente respingando nas futuras contas de luz que já estão a caminho. Nada disso é segredo, mas certamente a maior parte da população desconhece a realidade energética que estamos vivendo. E passados dez anos da criação do programa “Luz Para Todos”, o governo federal já sabe que subestimou – e muito – o número de casas sem energia. A estimativa é de que, hoje, 257 mil casas estejam sem luz elétrica no país: um milhão de pessoas.

Cerca de 70% da superfície da Terra é coberta por água em estado líquido. Do total desse volume, aproximadamente 97% se encontram nos mares e oceanos como água salgada, 2% em geleiras e calotas polares e cerca de 1% nos rios, lagos e fontes subterrâneas. O Brasil dispondo de um subsolo rico em água potável possui, aproximadamente, 20% das reservas de água doce do mundo. E especialistas em hidrologia estimam que em 2025 mais de um terço da população mundial sofrerá com falta de água potável…

Captação, armazenamento de água e geração de energia no país sempre foram problemáticos. Problemas que ao longo de décadas, muitas, vem sendo empurrados com a barriga e contemporizados por governos inertes eleitos a cada quatro anos. Com a riqueza das condições hídricas brasileiras deveríamos nos envergonhar por não tratar dignamente esse ouro líquido, carente em parte do planeta. E não será surpresa se em futuro pouco distante a água venha a ser considerada uma “commodity” a exemplo de minérios, petróleo, café, soja e cereais.

Não é pequena a população insensível ao verdadeiro drama que vivemos em relação à água. A história sempre se repete: tão logo as condições adversas são contornadas – não resolvidas! – e a água voltar a sair das torneiras, tudo volta a ser como antes. Comportamento inconsciente com tragédia anunciada.

Existem duas formas de conscientizar as pessoas: com educação ou com sofrimento. Com raras exceções, escolas não formam indivíduos para a vida cidadã; apenas ensinam aos mais privilegiados a passar em vestibulares. Muito pouco para um país que desperdiça muito de tudo. Já o sofrimento se faz presente justamente entre aqueles que menos têm: no caso da água, boa parte da população nordestina, vítima, até, da indústria da seca. Injusto!

E ainda tem gente que insiste em varrer e lavar a calçada com mangueira de esguicho!

Contrastes

Quando tanto se fala em modernizar o sistema viário das cidades – a tal da mobilidade urbana – a prefeitura de São Paulo cria quilômetros de corredores específicos para o trafego de ônibus, espremendo ainda mais os automóveis em suas faixas de rolamento e, mais ainda, os motociclistas. Máquinas que cresceram em números espetaculares e que não mais cabem nas ruas e avenidas da cidade. Visão míope do futuro!

Parece que a politica dos executivos federal e municipal se resume mais a “fazejamento” que a planejamento. Por um lado, as cabeças pensantes em Brasília (?) reduzem impostos e criam incentivos para aumentar a produção de automóveis sem se preocupar onde colocar o boom da produção – fazendo a maior capital do país sofrer diariamente com congestionamentos quilométricos. Por outro, imaginar-se que a solução meia boca encontrada, fruto de medida emergencial para atender à ”voz das ruas” por melhores condições de locomoção da população, a preço justo, não consegue oferecer a essa mesma população um mínimo de conforto no transporte público de massa, onde seus usuários continuam viajando amassados.

Enquanto isso, o discoverybrasil.com divulga que “uma rodovia exclusiva para ciclistas, com 60 quilômetros de extensão, será construída em uma das regiões de tráfego mais intenso da Alemanha, que liga Dortmund a Duisburg, dois importantes centros industriais do país. O projeto intitulado Radler B-1 será implantado não só como alternativa de aliviar o trânsito no local, mas também como ferramenta para reduzir gases poluentes na atmosfera. A autoestrada construída para os ciclistas alemães deverá ser implantada paralelamente a um dos trechos mais movimentados da A40, uma das principais rodovias do país europeu”.

“Além das pistas asfaltadas nos dois sentidos, a infraestrutura vai contar com um sistema de iluminação pública e uma barreira de proteção aos ciclistas. A Radler B-1 também não possuirá cruzamentos, a fim de aumentar a segurança de quem andar de bike na rodovia exclusiva.”

Importante lembrar que a Alemanha foi devastada pela segunda guerra mundial, mas sua indústria, três anos após a rendição (1945), já exportava VW para o mundo…

Competência não se compra em supermercado, disciplina se aprende por comportamento e politização é consequência de respeito de governos pelos cidadãos.

Nesse país da fartura, em que se plantando tudo dá, já escrevia Pero Vaz de Caminha, mas onde tanto falta, resta a esperança de que um dia, um dia, possa nosso povo votar sem obrigação ou cabrestos ideológicos. Aí sim, quem sabe, a gente chega lá!

Tragédia anunciada

O novo ano começou açoitado por tragédias climáticas aqui e no mundo afora. Ceifando a vida de milhares de pessoas, atinge mais os menos favorecidos, sofridos, não raro resignados com a própria sorte.

As intempéries cada vez mais agressivas encontram solo fértil em seu caminho de destruição. O homem, cúmplice dos momentos dolorosos que vivemos, torna-se refém de seus semelhantes.

Contínuos alertas de autoridades que tratam do assunto com seriedade esbarram em ouvidos surdos de políticos insensatos, de comportamento espúrio. Gananciosos empreendedores, encontrando naqueles os parceiros ideais, agem sem constrangimento visando apenas lucros a qualquer preço. Inclusive com o da perda de vidas humanas. Eximem-se da responsabilidade pela aprovação de projetos em áreas de risco, aumentando as possibilidades de desastres naturais, em troca de favores inconfessáveis. Violentam a mãe Natureza desviando cursos de rios de forma irresponsável, desmatam florestas, poluem a atmosfera, em nome do progresso duvidoso.

Um verdadeiro genocídio! Genocídio, sim, cometido por aqueles que deveriam defender a segurança, a qualidade de vida e o bem-estar das populações. No meu entender, crimes perpetrados contra a humanidade que ficam sem julgamento e condenações!

São muitos, felizmente, os que se rebelam contra a omissão de governos corruptos, que agem impunemente acobertados pelo corporativismo político, subsidiados por grandes corporações e empreendedores. Muitos sim, mas ainda em número insuficiente para fazer soar o gongo do chamamento e se fazerem ouvir.

Se as mídias fossem livres das amarrações publicitárias e políticas, poderiam ajudar a reverter este quadro com sucesso. Mas como se trata, ainda, de mera utopia e o nosso mundo real tem como prioridades o petróleo do Iraque, o gás do Afeganistão e agora a elevação da segurança no Iêmen… temas como o abordado aqui não merecem a devida atenção.

O drama que vivemos em todo o planeta não nos permite simplesmente sentar em frente à TV, descompromissadamente, assistindo a glamorosas novelas e versões jornalísticas dos fatos reais.

A responsabilidade pelo encaminhamento de soluções para a desordem instalada é só nossa. Os que têm o poder da caneta e do preenchimento de cheques são de outra espécie. Nada se espere deles.

Somos responsáveis, por princípio!

NOTA: Você talvez não se recorde, mas esta crônica foi publicada em 15 de janeiro de 2010, portanto há três anos, sob o titulo Genocídio! Dizer mais não é preciso.

O que não se aprende na escola

Assisti a um documentário sobre a vida do pele-vermelha, nativo-chefe da tribo norte-americana Lakota Sioux, “Sitting Bull”-Touro Sentado – (1831 a 1890). Famoso por liderar a resistência contra a política nada amigável do governo de então, que visava a supressão de territórios ocupados por seus iguais desde tempos imemoriais, sua história transcendeu a história.

Ponderando sobre o assunto, não surpreende que, desde o principio dos tempos, o homem luta e morre para conquistar territórios e se apropriar de todas as riquezas que neles se encontram. Filosofando um pouco, qualquer alienígena que estivesse se aproximado da Terra teria como visão primeira muita água e muita terra. As águas são, hoje, demarcadas por tratados internacionais que estabelecem a quem cabe sua propriedade. As terras, conquistadas pelo império da força foram, pelo nepotismo e ao longo dos séculos, sendo distribuídas a apaniguados inicialmente e, “legalmente” mais tarde, consideradas propriedades de países e pessoas espalhados pelo planeta faz tempo.

Partindo-se do principio que ninguém fabricou ou produziu terras e águas nesta Terra, como se admitir que possam, então, serem elas propriedade de quem quer que seja? Irrefutável que a ganância dos homens e o domínio do poder pela riqueza via bens e propriedades são inerentes à natureza humana, incapazes de compartilhar o que – gratuitamente – lhes foi ofertado “lá atrás”. Mas nem sempre foi assim.

No caso dos peles-vermelhas e de nossos tupiniquins por aqui, além de outros tantos habitantes primeiros, terras, mares e rios eram preservados, admiravelmente, como patrimônio de sobrevivência. Tempos em que não havia mar, terra ou rio que pertencesse a governos ou cidadãos. Tempos idos.

Lamentavelmente, os povos europeus cultos, educados, dominadores, usurpadores foram, irresponsavelmente, dizimadores de culturas conscientes, ricas em sabedoria e formas de viver; época em que viviam –  os invasores – na opulência sugando colônias escravizadas à exaustão.

Poderia restar o consolo às nossas sociedades, tecnologicamente avançadas, mas humanisticamente retrógradas, de olhar no retrovisor da história e, quem sabe, reaprender com quem ainda preserva sabedoria dos ancestrais. Certamente os ensinamentos de então não se perderam, eis que traços de suas culturas permanecem vivos, ainda que escondidos nos recônditos de suas almas.

Se algum dia tiver a oportunidade de conversar com remanescentes autênticos de tribos em qualquer lugar do planeta, apenas permaneça atento, falando pouco e ouvindo muito. Descobrirá, por certo, que não há Google que possa substituir seus ensinamentos sobre como desfrutar de uma vida. Com vida!

O Eu, o Tu e o Nós

“Na verdade, quem luta apenas na esperança de bens materiais não colhe nada que valha a pena viver. Que são cem anos da história da máquina em face dos duzentos mil anos da história do homem? Ainda nem acabamos de nos instalar nesta paisagem de minas e centrais elétricas. Ainda nem nos sentimos moradores desta casa nova que nem sequer acabamos de construir. Tudo mudou tão depressa em volta de nós: relações humanas, condições de trabalho, costumes… Para aprender o mundo de hoje usamos uma linguagem que foi feita para o mundo de ontem. E a vida do passado parece corresponder melhor que a nossa natureza apenas porque corresponde melhor à nossa linguagem.”

Estas palavras foram escritas, em 1939, por um genial escritor-aviador ou, se preferir, aviador-escritor, em seu livro “Terra dos Homens”, laureado com o Grande Prêmio de Romance da Academia Francesa. O autor, da também genial obra “O Pequeno Príncipe”, Antoine de Saint-Exupéry, deixou-nos um legado de sabedoria e profunda percepção da natureza humana. Muito além de seu tempo, enxergava o mundo e as pessoas sob a ótica de quem, voando com sua precária máquina em áreas inóspitas e climas inclementes, descobria, em tempos idos, rotas capazes de aproximar as pessoas ainda que pela via de correspondências postais. Repórter da guerra civil espanhola e, mais tarde, piloto de reconhecimento durante a segunda guerra mundial, desapareceu durante uma missão em julho de 1944. Deixou-nos para sempre, juntamente com sua máquina; mas deixou-nos também – e a nos lembrar através de seus livros – um legado que colocam o homem e a condição humana em primeiro lugar.

Nestes tempos de violência global, impingida até por motivos os mais mesquinhos, a insensibilidade de muitos espalhados pelo planeta e não poucos em nosso próprio quintal escancaram as atrocidades de guerras formais ou informais que confrontam, até, irmãos étnicos.

Estaria Saint-Exupéry equivocado em sua visão do mundo e das pessoas com as quais convivia – no ar, em terra firme e desertos – em continentes distintos como Europa, América do Sul, África? Desde tempos imemoriais o homem se comporta ambiguamente com selvageria e civilidade. Ainda estamos distantes, creio eu, do tempo em que as criaturas, todas, haverão de se irmanar visando a sobrevivência da espécie. Será pegar ou largar. O “eu” e o “tu” se não derem lugar ao “nós” abreviarão a vida dos terráqueos por aqui.

Como o vaidoso e orgulhoso que se curva diante do chamamento da morte depois de uma sombria ameaça de infarto, revendo seus anseios e prioridades, todos, sem exceção, terão que optar entre a teimosia e a razão quando chegado o momento.

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