O tempo vai passando, o homem ficando mais longevo e comprovando que suas oportunidades de continuar sendo útil à sociedade decrescem. Ao longo da história – não a dos tempos modernos – cabelos brancos e rugas sempre foram sinônimos de sabedoria, experiência, prudência, sensatez. Eram o resultado de tudo aquilo que não se aprendia – e continua não se aprendendo – na escola. A não ser na escola da vida.

Um arsenal de artifícios leva o homem movido a marketing publicitário a tentar parecer o que não é e, pior, o que tem vergonha de ser. A poderosa indústria da juventude, que encanta os jovens e assusta aqueles com mais de 40, 50 ou 60 anos, estabelece conceitos e cria preconceitos aceitos por todos sem dó nem piedade.

O mercado de trabalho, que cria regras específicas e rígidas oferecendo oportunidades apenas para quem chegou, no máximo, aos 35/40 anos, a exceção fica por conta daqueles com potencial para ocupar os chamados cargos executivos de alto nível.

O curioso de tudo isto é que não faz muito tempo o homem não vivia muito mais do que esses poucos anos. Os índices de mortalidade, inclusive precoce, eram assustadores. Hoje vivemos muito mais. O tempo médio de vida do brasileiro gira, agora, em torno dos 70 anos. E continua avançando.

Mas o ser humano adora rotular as coisas. Rotula e define, por exemplo, que idosa é aquela pessoa que já está na casa dos 60 anos (antigamente identificadas como sexagenárias). Em sinal de “respeito” criaram-se, para elas e aquelas de idade mais avançada – ostensivamente – passes gratuitos para ônibus, tarifas reduzidas para entretenimento, filas compartilhadas com gestantes, deficientes, mães com filhos no colo, e outras conveniências piedosas. Apesar de muitas serem ainda saudáveis e com “pique”.

As pessoas – em qualquer idade – têm ambições, querem se realizar ou continuar se realizando, sentirem-se úteis de fato e não apenas por caridade. Após certa idade são induzidas a acreditar, no entanto, que seu potencial acabou, que são dignas de comiseração, que têm simplesmente que tocar a vida aguardando o fim de seus dias sem nenhuma perspectiva. Dentro deste quadro, o mais incrível é que tem gente, não pouca, com 70 ou mais anos, com mais vigor e cabeça que muitos de 40 ou até menos idade. Mas o estigma imposto por nossa sociedade derrota muitas delas prematuramente.

Já é chegado o momento de a idade cronológica dos menos jovens deixar de ser parâmetro para balizar caminhos e definir quem pode ou não fazer o que e em que condições. Estereotipamos tudo. Se uma Jane Fonda aos 50 está mais enxuta que muitas de 30, não importa: é uma cinqüentona e integrante do “Clube da Terceira”. Mas graças à evolução da medicina moderna, tem sido possível ao homem se tornar cada vez mais saudável, física e mentalmente. O lamentável é se constatar ainda que os critérios que permitem ao mesmo homem, com saúde, continuar dando sua contribuição à comunidade independentemente de sua idade, permanecem tão arcaicos como nos meados do século XX.

As grandes exceções são encontradas nos mundos da política, da ciência, das artes, da literatura. Presidentes como Reagan e Mitterand, primeiros-ministros como Churchill, Adenauer, cientistas como Einstein, Schwitzer, escritores como Jorge Amado, artistas como Paulo Autran e Dercy Gonçalves – adolescentes da chamada terceira idade – mantiveram-se ativos. Não foram jamais considerados perante a sociedade como septuagenários ou octogenários. Foram respeitados, sim, pelo que foram como pessoas, por sua contribuição em todas as fases de suas vidas.

É chegada, portanto, a hora de repensar o modelo de julgamento etário. Muito em breve o homem estará vivendo com saúde e disposição por mais de cem anos, com seus neurônios funcionando a plena carga. Será que teremos que aguardar até lá para considerarmos os nossos adolescentes da terceira idade como membros ainda aptos a desempenhar seu papel com dignidade? Ou devemos continuar depositando-os nos asilos da esperança?