Nascemos todos iguais, com alma pura e inocência abençoada. Dependentes, fomos sendo moldados pelos ensinamentos de pais, creches e escolas desde a primeira infância. Nos primeiros anos, a espontaneidade aliada à ingenuidade libertava-nos da responsabilidade de fazer perguntas tolas e de dar respostas corretas. Perguntas que não raro engasgavam adultos e respostas que desconcertavam os amadurecidos.

Tanta sabedoria transbordava nossa expressão com mais sorrisos que lágrimas. Lágrimas derramadas apenas quando queríamos fazer valer nossa vontade ou quando, em momentos de dor e medo, a elas recorríamos pedindo proteção e socorro. Sem nenhum pudor, hesitação ou receio da crítica. Descompromissados com a avaliação alheia podíamos ser nós mesmos. Desobrigados de nos escondermos atrás da armadura que nos seria imposta mais tarde para enfrentar as situações da vida, convivíamos harmoniosamente com a coerência. Palavrinha que ausente em nosso vocabulário estava sempre presente em nossas ações.

Fomos crescendo e perdendo gradativamente a autenticidade. Os dias em que nos socializávamos sem restrições nem preconceitos foram ficando para trás. Atravessamos a adolescência, muitas vezes turbulenta e dominada por ilusões, para mergulhar na era adulta. Era de sonhos, aspirações e determinação. A vida, nos impondo regras – impostas como se fossem dogmas – parecia nos alertar para o enigma da esfinge: “decifra-me ou devoro-te”.

A busca por respostas irrespondíveis, por aquela coerência então inexistente, foi modelando nossa existência. Tomamos consciência de que nosso ciclo não nos permite viver tempos que jamais voltam. Em contrapartida, propicia a oportunidade de convivermos próximos àquelas que ainda mantêm a espontaneidade, a inocência, a ingenuidade, a coerência: as crianças.

Junto a elas nos permitimos colocar as armaduras de lado enquanto nos tornamos, por momentos, nós mesmos. Outra vez.