Não me recordo, jamais, de ter ouvido alguém clamar por barulho. Não só cidades grandes como São Paulo têm suas ruas com barzinhos tocando música ao vivo pela noite adentro. Moradores não conseguem dormir, as discussões são freqüentes e descanso para todos que é bom mesmo, nada. Claro, existem leis que deveriam preservar a tranqüilidade e o silêncio a que as pessoas têm direito. Mas em um país de impunidades, como o nosso, o óbvio deixa de sê-lo. Decibéis? Civilidade? Urbanidade? Muito prazer em conhecê-los!

Você já se imaginou ligando para o vizinho, a qualquer hora, exaltadamente insistindo: “por favor, faça seus cachorros latirem um pouco mais, coloque o volume do som no último pois não consigo ouvir com clareza o bate-estaca e, se puder, diga àquele seu filho que ensaia rock com guitarra elétrica e bateria para não desistir. Numa boa.

Afinal, basta uma maçã podre para estragar o cesto, diz o ditado. Você se recorda de já ter ouvido alguém reclamar que o silêncio está incomodando o seu repouso, sua soneca de fim-de-semana à tarde depois daquele almoço, sua noite sonolenta depois de um dia de cão? Ou, ainda, seu trabalho intelectual?

Esse negócio de silêncio é complicado mesmo e seu antônimo parece desfrutar de imensa preferência popular. Para alegria dos otorrinos e fonos. Mas já imaginou se as pessoas, a exemplo dos animais, não falassem? No mínimo o número de desentendimentos seria infinitamente menor. Os animais se comunicam por sons (dos bons) e se entendem. Nós humanos pela palavra aprendida e não raro pela palavra grande, o palavrão, com certa dificuldade. De dedo em riste muitas vezes. Aquele dedo!

Muita gente não suporta o silêncio como companheiro. Dá muito que pensar, relaxa. Trás à tona realidades escondidas. Não é, definitivamente, artigo para qualquer um. E não é por outra razão que barulhada rima com patuscada.

Esta epidemia do chamado som, não música, veio para ficar. Antes de ser produto da parafernália industrial de alta tecnologia capaz de efetuar a transmissão dos decibéis, o descompasso nasceu do desrespeito ao próximo invadindo barreiras da privacidade e do bom senso. Sem constrangimento algum.

Muitos tentam fazer a sua parte exercendo a boa educação e civilidade. Outros, como ouvi recentemente: “quer silêncio? Vá para as montanhas curtir a natureza, hospede-se num mosteiro, pesque no rio.” Traduzindo: os incomodados que se mudem! A questão é: para onde?

Mas, “O macaco também cai da árvore” (Provérbio japonês)