As eleições de domingo passado revelaram que uma chama foi acesa na escuridão da política brasileira. Depois de muitas décadas vimos, finalmente, surgir uma figura que nos enche de esperança ansiando por uma “virada” na conturbada, para não dizer maculada, vida política nacional. Expressivos vinte milhões de brasileiros foram às urnas para consagrar aquela que se propôs a civilizada, coerente e transparentemente, apresentar uma visão de como este abençoado país – tão vilipendiado pela classe política – pode vir a ser governado.

Uma semente está, definitivamente, plantada por aqueles que, sensibilizados por essa virtuosa criatura, se propuseram a apresentar uma nova versão sobre como conduzir os destinos desta nação.

Não desperdicemos esta oportunidade que se nos apresenta para repensar a vida política brasileira durante os próximos quatro anos. Não permitamos que a chama que ora se acendeu possa se extinguir. Não compactuemos com o canto da sereia.

Com sua licença, permito-me transcrever e-mail que dirigi à senadora em 19 de agosto de 2009.

“ Senadora Marina Silva, boa noite.

A política não me seduz, muito pelo contrário. Nunca me filiei a partido algum, por princípio e por não encontrar políticos que merecessem o meu respeito. Contrário ao voto obrigatório sempre cumpri com meu dever, melhor dito, obrigação, para não ser punido. Não tenho liberdade de optar por não votar. Políticos em suas votações secretas no Congresso a tem. Conchavos não fazem parte de minha formação nem intelecção. Minhas convicções democráticas permanecem inabaladas apesar do uso abusivo e persuasivo do poder emanado a partir da Praça dos Três Poderes.

Marina: peço-lhe permissão para abandonar o tratamento de V. Exa. a que tem direito por ser senadora da República. Dirijo-me a você, como digna representante da mulher brasileira, alfabetizada apenas na adolescência, coerente, culta e estóica. Sua carta-renúncia ao partido que ajudou a fundar é antológica. Merece ser conhecida e submetida à reflexão de todos os brasileiros. Sua linguagem contrasta com a dos discursos enfadonhos e sem conteúdo daqueles que não merecem ser seus pares. Seus ideais de vida não se alteraram desde o primeiro dia e sua coerência faz de você um modelo de decência. De integridade moral, honestidade, compostura.

Emociono-me, Marina, quando vislumbro a possibilidade de tê-la como presidenta da República. Seu exemplo de vida a faz merecedora dessa oportunidade que surge em mais um momento crucial da vida deste abençoado país. País poluído por atos e omissões de gestores indignos, mas dignos da execração pública.

Estou certo que sua caminhada até o Palácio do Planalto não será tranqüila. Os fariseus estão adormecidos, não inertes. Mas acredito na verdade, decoro, autenticidade, coerência, competência. Predicados seus.

Pela primeira vez em minha vida vejo acender em mim a chama da esperança  de viver em um Brasil que merece respeitar seu povo e por ele ser respeitado. Esse mesmo povo que, confio, delegará a você a tarefa de dirigir seus destinos com lisura, honradez e compostura. Prepare-se para subir a rampa. Conte conosco.

Que Deus a abençoe e a oriente.

Roberto Alves de Athayde

Holambra (SP), 19 de agosto de 2009 ”