Conversa para boteco literário descompromissado, ou nem tanto, a mais reveladora é aquela que temos com nós mesmos. À medida que a vida vai rolando, com diriam os mais jovens, essa conversa íntima oferece aos mais conscientes a oportunidade de fazer uma retrospectiva de sua passagem por aqui. O que passou não pode ser alterado e muito do que esta por vir independe de sua vontade e controle.

Quero crer que todos nós, em algum momento ou momentos diversos, nos propomos a fazer um balanço, espécie de auditoria nos livros da própria vida. Auditoria que nos permite encontrar gatos escondidos, miando, na esperança de encontrar seus ratos.  Ou deixar de forma escancarada que acertamos na mosca por ter feito o uso correto do arco e flecha disponíveis. As inevitáveis dúvidas, que aguardam respostas para a palavrinha mágica “ por que?”, tornam nosso percurso mais misterioso e, porque não, encantado.

Quando jovens, encaramos a vida como sendo eterna e nossa mortalidade tão distante quanto Marte, anos-luz à frente. Vez por outra, levamos um tranco percebendo que muitos se vão em tenra idade. São momentos de curta reflexão substituídos pela avalanche de sentimentos vários a que somos submetidos todos os dias. E, curiosamente, sem que importe a idade que temos hoje, os mais velhos nos parecem ser, sempre, muito mais velhos. Creio que Freud explica…

Essa questão de idade cronológica – anos – que usamos para medir o tempo de vida, mais se parece com o odômetro de nosso carro indicando a quilometragem percorrida. A diferença reside no simples fato de que não é possível trocar a “carcaça” por uma mais nova depois de encerrado o prazo de garantia. Garantia? Que garantia? A solução está em se conservar a estrutura física e mental fazendo manutenção aqui e ali, mantendo o pé na estrada. O Manual aconselha que não se exija muito de nosso veículo, intolerante a exageros, que manda a conta rapidinho caso não seja tratado com muito carinho.

Aliás, tem muita gente que cuida mais e melhor de seu motorizado que da carroceria em que dorme todas as noites. Como não somos máquinas, mas providos de alma, cérebro e livre arbítrio, não há o que reclamar.

Cada idade tem seu encanto, desde que usemos o bom senso de evitar querer ser como e o que já fomos; isto se você já entrou na categoria dos “enta”. Antes, dificilmente a ficha cai.

Aproveitar a sabedoria com que a vida nos brinda – se com ela aprendermos – curtir o hoje, que amanhã será ontem, pode nos lembrar que as águas do rio nunca passam pelo mesmo lugar duas vezes.