É próprio da natureza humana querer conhecer o futuro. Não é por outra razão que horóscopos, diariamente publicados em jornais, revistas, internet, são consultados até pelos mais incrédulos. Ainda que seja apenas para dar uma olhadinha, na expectativa de ler alguma notícia promissora que possa trazer mais alento, mesmo que tudo esteja fluindo como em céu de brigadeiro.

Focamos mais o futuro que o presente, vivendo quase sempre de expectativas. Expectativas geradas pelo mundo da informação, das apreensões naturais, embaladas por aquele do consumo, deixando pouco espaço para o exercício da introspecção diária. Introspecção que nos permite considerar perspectivas escondidas pela agitação na busca de uma melhor qualidade de vida.

O silêncio, que nos proporciona a ventura de ficarmos a sós com nós mesmos, trazendo à tona inimagináveis conselhos e clareando idéias, tornou-se artigo em extinção no mercado. Lojas comerciais tocando música rápida e em alto volume; anúncios na televisão, que ao entrarem nos comerciais automaticamente sobem o tom; carros de som irritando os tímpanos dos que ainda não ficaram surdos; milhares de pessoas comuns andando a pé, de ônibus, trem ou carro com seus ipods pendurados nas orelhas se mantém alheias ao mundo que as cercam se tornando submissas à ordem de não pensar.

Ouvimos com freqüência que o tempo passa cada vez mais rápido e nos surpreendemos quando constatamos que incidentes ou acidentes ocorridos há anos parecem ter acontecido muito mais recentemente. Como na letra do genial Chico Buarque de Holanda,  “o tempo passou na janela e só Carolina não viu” olhamos para frente, usamos o passado como referência e a janela do hoje, por falta de tempo, pode permanecer fechada. O crescente volume de informações disponíveis e compromissos criados pelos mercados de consumo vêm tornando escassas as oportunidades para estarmos conscientes, inteiros, aqui, agora. Oportunidades que podem não se reapresentar,  deixando para trás momentos irrecuperáveis.

A chamada “virada do ano” que deu início à caminhada de mais 365 dias até que se repita novamente, começou com mais um novo dia, como todos os dias, exceto para os ressacados, que não foram poucos.

Com muitas viradas pelas costas, mais do que gostaria de admitir… e dentro de minha filosofia de vida, o dia mais importante a ser celebrado será sempre o de hoje. Eventualmente com uma cervejinha, que ninguém é de ferro.

Ótimo Ano Novo! Voortreffelijk Nieuwjaar!