Viver em sociedade não é tarefa das mais fáceis. A aglomeração de pessoas em todos os lugares não deixa espaço para convivências mais estreitas. Ao contrário, as afasta por desconfiança, medo, insegurança pessoal.

Ao longo do tempo as pessoas foram se confinando, ou sendo confinadas,  em áreas cada vez menores –  o que não tem contribuído para a uma maior aproximação. É o caso típico dos condomínios verticais e horizontais onde pessoas se cruzam o tempo todo, mal se cumprimentam – quando o fazem –, se isolam em seus apartamentos ou casas.

A informatização da sociedade tem acelerado o distanciamento físico e impulsionado o contato virtual. Internet e celulares passaram, por exemplo, a substituir as cartas, que exigiam tempo para serem escritas, colocadas no correio, gerar expectativa de respostas, dando-nos a impressão de que o mundo girava mais devagar. Todos os expressivos benefícios advindos do desenvolvimento tecnológico, que incrementa a velocidades incríveis os meios de comunicação, cobram pedágio por seu uso.

A vida passou a ficar mais acelerada como tudo que se move mas, curiosamente, o tempo que deveria restar, encolheu. Somos atropelados pelo relógio para viver e executar as tarefas do cotidiano, apesar de contarmos com tantos instrumentos que deveriam enriquecer nossa existência tornando-a mais leve e agradável.

O nosso último reduto, a casa, que definitivamente não é a mesma coisa que lar, integrou-se ao confinamento a que temos sido submetidos. Cercados pela sensação de insegurança e periculosidade, na busca de proteção, criamos outros cercados antes usados para confinar apenas animais. Nossa liberdade de ir e vir, que em nossa Constituição tem conotação diversa, está restringida, tornando-nos ansiosos e precavidos em todos os momentos que circulamos.

Fico a pensar se nossa liberdade é maior que aquela de um pássaro engaiolado, dirigindo carros com vidros escuros, alarmes em nossas casas, cachorros no quintal, 190 registrado no celular. A contrapartida dessa situação é a percepção que tenho da conscientização de muitos para com a realidade que vivemos e a perseguição de um novo caminho de convivência.  O que nos torna, a meu ver, atores de uma nova peça que tem tudo para ser um amplo sucesso.

É briga prá cachorro grande. Baixemos um pouco a guarda, confiemos um pouco mais no outro e, quem sabe, o celular há de tocar menos e a caixa postal de nossa internet ficará menos cheia.

Sorria, você não está sendo filmado.