Domingo, 10 horas da manhã. Saio com meu carro da garage e alguns metros adiante encontro no asfalto um pássaro que parecia ser uma maritaca. Pequenino, filhote ainda, quieto no chão. Ao chegar perto dele, se arrastando foge. Percebo que não consegue voar pois uma de suas asas, mais curta que a outra, não se movimentava. O que fazer? Sem opção, e não querendo abandoná-lo à própria sorte, levei-o para casa.

Com o auxílio de minha mulher examinamos sua asa sem movimento e percebemos que está machucada, faltando boa parte das penas, com um ponto inflamado. Doía quando se lhe tocava e o pequenino gritava. E como! Com seu bico de poucos milímetros mordia meu dedo tentando se proteger. E posso garantir que doía – e bastante – o meu dedo. Rapidamente chego à conclusão que precisamos (ele e eu) de ajuda.

Segunda feira de manhã, logo cedo, aguardo o auxílio de um amigo, expert no assunto. Chegou, conversamos, o pequenino foi examinado. Não era uma maritaca, mas sim um Tuim. Novidade para mim que sei tanto sobre pássaros quanto sobre energia nuclear. Aprendi mais esta. E com sua habitual prestimosidade sugere e lhe aplica um antibiótico. Pede-me que volte à tarde para mais uma aplicação e que fique de olho para ver se o bichinho se alimenta. Segui à risca sua orientação colocando painço, almeirão, água e frutas à disposição de Tuim.

Terça feira pela manhã, suspeitando que Tuim não estivesse se alimentando direito retorno para mais uma aplicação do antibiótico e exame mais detalhado. Parece ser um defeito de nascença com a asa atrofiada, mas também ferida. O que ocorreu? Não sabemos. Decidimos dar tempo ao tempo. Combinamos continuar o tratamento da infecção, duas vezes ao dia, e aguardar.

Retorno para casa e Tuim, instalado em uma gaiola por falta de opção, é colocado na varanda do lado de fora. Cerca de uma hora depois, no mais absoluto silêncio, para meu espanto, percebo que um casal de Tuins se aproxima, ronda e pousa em cima da gaiola. O pequenino se agita, grita, abre o bico, se mexe como pode dentro do seu cativeiro forçado e se aproxima daqueles que – presumia eu – fossem seus pais. E eram mesmo! Em uma cena de rara e comovente beleza os pais, através da grade, começaram a alimentar o pequenino em perfeito entendimento entre os três. Impossível reproduzir a majestade do momento!

Mas como entender? Como ser possível que dois dias depois de eu haver recolhido Tuim do asfalto, tê-lo trazido para dentro de casa, o tratado com carinho, pudesse ser ele localizado pelos pais? Quais os meios de comunicação e localização utilizados por estes pequenos pássaros? Como podiam saber onde Tuim se encontrava, que precisava comer e de pronto já trazer o alimento que ele necessitava?

E um turbilhão de questionamentos me vinha à mente. Claro ficou que a sensibilidade e percepção – perdidas pelos humanos – permanecem intactas nos animais. Que maravilha ser lembrado disto. A penosa contrapartida tem sido a perda crescente de percepção e sensibilidade dos ditos “animais racionais” que os tem levado à condição de seres sobreviventes em um planeta agonizante pela transgressão da ordem natural que nos foi legada pela própria natureza. Simplesmente, pensava eu, perdemos a capacidade de contemplar! É isto mesmo. Perdemos a capacidade de contemplar! Contemplar as coisas mais simples que estão à nossa volta, ao nosso alcance. Contemplar o sol que nasce e se vai, a lua que cresce e míngua, os pássaros que nos cercam, a beleza das árvores (há quanto tempo você, realmente, não pára para admirar uma?), a mudança de tempo, antes tão amigo mas agora zangado com nosso descaso e desprezo vem causando tragédias por toda a aldeia global. E quantas mais poderia enumerar. Todas tão simples.

São três horas da tarde. Sentado ao computador, tenho a felicidade de poder contemplar o casal de pais do Tuim, mais uma vez alimentando seu filhote. Vieram trazer o lanche? Não me pergunte por que resolvi escrever esta crônica. Não sei ao certo. Creio que por ter resgatado um pouco de minha curiosidade e sensibilidade da infância, época em que tudo se observa, tudo se questiona, tudo se percebe. Sem preconceitos de qualquer ordem.

Se Tuim se recuperar e conseguir voar será convidado a se juntar aos seus. Não será uma tarefa muito fácil deixá-lo ir, depois desta experiência que me faz olhar as coisas sob um prisma diferente. Mas ele não pertence aqui. A expressão “livre como um pássaro” tem toda razão de ser. Mas se Tuim não puder viver com suas próprias asas morará conosco. Encontrará proteção contra predadores e terá quem olhe por ele. E, quem sabe, convidando sempre seus pais a se juntar conosco na varanda lá fora. Quem sabe?

Obrigado Tuim!