As conseqüências da catástrofe ocorrida no Japão no mês passado estão longe de se dissiparem. Ressalte-se, no entanto, a atitude serena desse povo diante de tanta tristeza e provação. Um ensinamento às nações mais jovens sobre como viver e sobreviver em momentos críticos da existência.

O comportamento irrepreensível de homens, mulheres e crianças colocando o respeito mútuo acima de qualquer interesse pessoal, é um exemplo dignificante a merecer reflexão. A consideração e a confiança nas autoridades, imperfeitas como quaisquer outras, levam sua sociedade a acreditar que os governantes trabalham sempre na busca de soluções por uma vida melhor de seus cidadãos.

País pequeno, populoso, destituído de recursos naturais que possam lhe conceder autonomia econômica, convive com dramáticas situações climáticas de forma engenhosa fazendo uso da tecnologia, procurando minimizar o impacto do inevitável: terremotos, maremotos, tufões. Talvez por isso sejam titulares da terceira maior economia do planeta.

As imagens distribuídas pelo mundo todo deram a dimensão da disciplina e consciência de que no Japão ninguém é melhor ou maior que ninguém. O exemplo mais marcante do que se pode definir como reverência pelo outro foi demonstrado durante o período crítico da falta de água para beber e de alimentos para todos. Pacífica e diligentemente aguardaram em filas intermináveis, por longo tempo, o momento para receber suas quotas sem qualquer usurpação. Apesar da escassez, não se teve notícia da ocorrência de violência, saques e comportamentos outros, tão comuns em sociedades do chamado primeiro mundo quando diante de crises de grande repercussão.

A cultura milenar dos nipônicos fortalece e prioriza a educação, a disciplina, a preservação de valores. Valores como a honra, princípio de conduta tão esquecido por nossa civilização ocidental. Quando flagrados em comportamentos ou ações julgadas indignas, envergonham-se, desculpam-se publicamente, como sinal de respeito pelo seu próximo.

Quem sabe estas não sejam algumas das razões que permitiram a circulação do trem-bala entre Tóquio e Sendai (cidade mais atingida pelo tsunami), desde segunda feira passada. Inoperante desde a tragédia de 11 de março, em apenas seis semanas e sem alarde, uma demonstração cabal de tudo que mencionei.

Quem sabe, ainda, possam os governantes do nosso país, um dia, priorizar a educação – resgatando a civilidade – e colocando a economia a seu serviço, e não o contrário.