Meu concunhado e amigo, gente fina e boa praça, já beirando a casa dos 80, espirituoso por natureza, vez por outra solta umas que meu pai chamava de “algibeira” (que pode ser dito sem esforço).

Com uma lucidez incomum, saiu-se com essa após mastigar um tira-gosto antes do almoço familiar no Dia das Mães: ”que maravilha esses meus dentes, mastigam todos os dias, há mais de setenta anos, e continuam me servindo até hoje”.

Nunca havia pensado eu sobre o tratamento que damos ao imenso ‘ferramental” que nosso corpo dispõe para manter-nos vivos e com saúde. Até mesmo ignorar sua importância quando tudo está bem e a negligência com que o tratamos eventualmente. A manutenção corretiva para manter-nos em forma supera muitas vezes aquela preventiva, para alegria de médicos e laboratórios farmacêuticos.

A fadiga de material, que acontece não apenas com materiais usados pelas indústrias, mas também com nossos órgãos – sabidamente – pode causar estragos consideráveis. Não me parece exagero fazer esse tipo de comparação, haja vista nossa complexidade e recursos comuns utilizados para a boa manutenção dos “status quo”: de materiais e órgãos humanos.

Tanto em um quanto em outro caso, faz-se uso de raios-x, ultrassom, ressonância magnética, amostras laboratoriais, “substituição de peças”, entre vários expedientes. Os resultados, sempre aguardados com alguma ansiedade, vão revelar aos engenheiros ou mecânicos de plantão, no caso médicos, a  orientação a ser dada.

E isto me faz lembrar um médico homeopata puro, cabeça branca desde quando o conheci, que me acompanhou por longos anos, tratando de minha embalagem e conteúdo. Figura rara na medicina, além de prescrever os medicamentos sempre sugeria que se conversasse com o órgão a ser tratado. Sem pretender entrar no mérito dessa questão sabe-se que, cientificamente, as células de nosso corpo são renováveis e que, também, possuem memória.

A maioria das pessoas crê que a cura de alguma enfermidade ocorre apenas através de um medicamento. É inegável sua participação no processo, mas fatores outros comprovados pela ciência, contribuem igualmente para o alívio e recuperação da saúde.

Dessa história toda, responsabilidade de meu querido concunhado que veio cutucar meus neurônios, ficou marcada a  relevância da bagagem que nos permite viver. Assim, procuro não me esquecer de minhas ferramentas, agradecer-lhes pelo bom funcionamento e, quando em pane, dar-lhes uma mãozinha batendo um papo também.

Papo legal.