O ex-diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, ex-candidato em potencial à presidência da França, tentou pular a cerca em um hotel de New York, ou pulou não se sabe ao certo, talvez imaginando que a dita, a cerca, fosse de arame liso e não farpado. Deu no que deu, eis que a seriedade com que assuntos que transgridem as leis no país do hemisfério norte, onde se deu o evento, se aplica a qualquer um.

Aqui, no país do futebol espetáculo, mulatas espetaculares e samba no pé, assistimos pela TV à aula de civismo dada pela justiça de um país que encara com firme atitude os direitos e deveres do cidadão. Não morro de amores pelo estilo, filosofia e objetivos de vida dos irmãos do norte. Sua percepção e visão do mundo me parecem míopes, sua arrogância em relação aos outros povos é declarada e, talvez por isso, se julguem arautos da democracia no planeta. Democracia um tanto opaca, haja vista que direitos humanos são respeitados conforme sua conveniência. A base de Guantánamo, em Cuba, por exemplo, mantém em cativeiro e sem julgamento, há anos, acusados até sem provas de condenáveis atos terroristas.

O fato é que a atitude exemplar da justiça americana deveria nos servir de modelo frente às vergonhosas situações que enfrentamos quando se trata de transparência e cumprimento das leis. Nosso sistema de governo está mais para imperial que constitucional, onde presidentes da República detêm mais poder que instituições estabelecidas como o TCU e até mesmo o STF. Lembremo-nos de casos como mensalões, julgamento pendente da extradição de Cesare  Battisti reclamada pela justiça italiana, obras paralisadas por indícios de irregularidades e retomadas pela caneta presidencial, farra com o dinheiro público em épocas eleitorais.

Estamos a viver no momento a avaliação de mais uma das inúmeras e nebulosas atitudes de membros do alto escalão da República quanto à lisura de comportamento. No caso, e no instante em que escrevo, o ministro número 1, chefe da Casa Civil, ainda deve explicações convincentes à sociedade por suspeitas quanto à idoneidade do crescimento súbito de seu patrimônio. Se, mais uma vez, o corporativismo e a blindagem costuradas nas esferas governamentais funcionarem, os anais de nossa história ficarão enriquecidos com mais este triste capítulo orquestrado nas bandas planaltinas.

Se o senhor Strauss-Kahn estivesse hospedado no lendário Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, talvez pudesse estar batendo uma bolinha agora, na praia, usando tornozeleira mais confortável. E, de letra, tirando uma casquinha nos fios dentais bronzeados expostos nas areias da princesinha do mar.

Quem mandou?