Houve uma época em que as pessoas eram educadas para serem educadas. Aprendia-se, então, a falar baixo em público, a respeitar os mais velhos dando-lhes o lugar em transportes coletivos, a cumprimentar as pessoas antes de iniciar qualquer diálogo, a permitir o acesso prioritário de senhoras a ambientes diversos, a obedecer e respeitar pais e professores. A lista completa é por demais extensa para ser aqui incluída.

Abordar este assunto nos dias de hoje pode soar como caretice – termo que você talvez não conheça se tiver menos de 40 anos -, haja vista que costumes se modificam, continuamente, através dos tempos. A contestação, sempre presente desde que você se entende por gente, e até mesmo antes, tem sido a mola propulsora das mudanças.

Na juventude plena queremos consertar o mundo, somos críticos ao extremo, pensamos saber mais – o que é verdade muitas vezes – trombamos de frente com as instituições na perseguição por transformações.

Na adaptação a novos costumes não existe parto indolor. A vida nos torna prisioneiros de hábitos que, arraigados, se tornam difíceis de serem revistos. A pergunta que fica é: até quando somos protagonistas de transformações e em que momento passamos para o outro lado, o de contestadores das contestações?

Viajante do carrossel dos acontecimentos, não tenho a exata noção de quando aconteceu o “corte” entre as duas situações em minha vida. Admito que, na educação de meus filhos, vivi o conflito entre o que me havia sido imposto como filho, impregnado em meu ser, e o esforço para me adaptar aos costumes da geração que me sucedia, vivendo hábitos e costumes distintos dos meus, tentando evitar o conflito.

Creio que a minha foi a geração sanduíche. Viveu o rigor implacável dos pais para, mais tarde, já como pai, sofrer com a liberação abrupta de regras pré-estabelecidas.

Se mergulharmos na vida da espécie animal nos damos conta que, via de regra, suas sociedades são mais libertas que a nossa, mais autênticas, mais despojadas, menos exigente, sem certo nem errado explícitos. Nós, humanos, criamos leis e regras de conduta que precisam ser avaliadas, julgadas, obedecidas e merecedoras de punição, se infringidas. Somos, em realidade, prisioneiros de conceitos impostos, conceitos cerceadores da liberdade que só os animais têm. Nem por isso somos mais felizes.

Na próxima, quero ser um pássaro suficientemente perspicaz para escapar da gaiola de algum ser inteligente, e poder – de livre vontade e com independência – agir apenas por instinto sem por isso ser condenado.