Tenho estado a pensar nos animais com os quais tenho compartilhado minha caminhada ao longo da vida. Convivência restrita a cães e pássaros.

Mais prazeroso que ouvir bate-estacas em sonoras caixas promotoras de surdos-precoces é apreciar pela janela aqueles que gorjeiam, os que trabalham buscando o néctar das flores, os que se estabelecem na fiação das ruas.

Tenho o privilégio de viver onde, ao entardecer, garças retornam para seu santuário à beira de um lago, em sinfonia silenciosa, como bom filho que a casa torna. Imagem que a correria do dia-a-dia esconde de tantos, mas que, também e sempre, no dia seguinte, lá insistem em oferecer sem qualquer custo a oportunidade de um happy hour para introspecção e revisão do dia.

À exceção do Tuim, cuja história já contei em outra crônica (disponível em meu site www.ponderando.com.br), sou dos que apreciam ter pássaros em liberdade zanzando pelo jardim. Se chamados, comparecem à “mesa” para nos brindar com cenas apenas absorvidas por aqueles dotados de sensibilidade aguçada. Se a descrição lhe soa poética, fico feliz.

Quanto aos cães, jamais me decepcionaram. Apenas arrasado, quando partiram na viagem sem volta. Foi o caso da boxer Tula, que nos deixou com apenas oito anos.

Sua passagem marcou-me profundamente, em duas oportunidades: a primeira, ao dar a luz a 10 filhotes na sala de jantar onde estava abrigada devido ao frio daquele saudoso inverno. Indescritível, a experiência de assistir ao vivo o parto desassistido de um animal movido apenas pela mão da mãe natureza. Comovente, vivenciar os primeiros momentos de cada filhote ao vir a este mundo, ainda de olhos fechados, sendo pela mãe acariciados e lambidos. Inacreditável, presenciar os rebentos se dirigirem – sem qualquer auxilio – diretamente para as tetas daquela que lhes deu a luz para a primeira mamada.

A segunda marca deixada, com Tula já precocemente doente, foi contar com a dedicação extraordinária de um veterinário, meu inestimável amigo Eddie van de Groes, que das 02h30min de uma fria madrugada até as primeiras horas da manhã tentou salvá-la do pior. Apesar da experiência traumática, jamais tive a oportunidade de vivenciar tanta dedicação a dois animais distintos: o considerado irracional e o racional. Dívida impagável, jamais esquecida. Gratidão eterna!

Homens se comportam mais animalescamente que muitos animais que atacam e podem agir ferozmente, mas que o fazem para apenas sobreviver. Nós humanos, dotados de inteligência – segundo consta – somos mais predadores que a espécie em questão, eis que nossas razões, irrazoáveis, nos transformam em animais falantes, pensantes, farsantes, beligerantes.

Quando puder, olhe pela janela.