Afirmam que nós, plantas, não falamos nem escrevemos. Talvez por isso não nos agridamos – apesar de constantemente agredidas -, respeitemos nossos semelhantes, contribuamos para o bem-estar dos seres humanos. Argumentam uns que seres humanos são da espécie primata bípede Homo sapiens (“homem sábio”, em latim). Data venia, eu e minha espécie discordamos cabalmente desta “sabedoria”.

Mas como sou uma árvore diferenciada, atrevo-me a registrar aqui meus últimos momentos ao ser implodida. Estou indo embora daqui após pouco mais de dez anos de convivência com tantos de vocês. Mandaram-me embora. Mandaram-me, não, exilaram-me! Sem qualquer possibilidade de reação, aos olhos de alguns poucos presentes à minha partida, sem direito a julgamento por tribunal isento, julgada fui por tribunal de exceção.

Alegam que sou uma ameaça à segurança e que por ser eu quem sou aqui não devo permanecer. Fez-se a justiça dos homens, senhores que se julgam acima do bem e do mal.

Alegres pelo dever cumprido ambiguamente e à guisa de privilegiarem o concreto, ferragens, uma estrutura inerte sem vida,  meus detratores ignoraram aqueles que levantaram suas vozes em minha defesa sem, no entanto, encontrarem um mínimo de eco.

O que já foi não mais é. Minha alma está em paz. Não adianta chorarem os amigos pelo meu infortúnio. Não gostaria de ser vista como mártir. Mas gostaria, sim, de ser lembrada como aquela que por aqui enriqueceu a paisagem, deslumbrou olhares atentos para a beleza de suas flores, deu sombra a quem precisou.

Quantos de meus algozes poderão dizer o mesmo, ainda que pertencentes a outra categoria? Imaginei que fosse terminar meus dias  neste que foi meu lar por tantos anos, perdendo o viço, secando das raízes aos galhos, mas de pé. Enfrentei tempestades e tormentas, raios e sol inclemente sem jamais me queixar. Estoicamente, permaneci íntegra cumprindo o papel que a mãe Natureza me confiou, sem estorvar a vida de ninguém. E a ela sou grata. Mas…

Arrancaram-me das entranhas da terra, de minha morada, a fórceps. Não sei se sobreviverei ao meu destino. Estou sendo enterrada na área em frente e fora do Condomínio, do outro lado da rua, próximo à rótula.

Deixo aqui o meu adeus a você que comigo conviveu e protegeu.

“ Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta.” (Albert Einstein)

24 de janeiro de 2012

*Flamboyant Condenado

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RAdeATHAYDE