Quero crer que todos nós, sem exceção, passamos a vida almejando. É certo que os anseios vão se modificando com o passar do tempo, tanto na forma como no conteúdo. O corpo altera suas linhas através da passagem dos anos. Desejos, vontades, objetivos acompanham, também, a linha do tempo. Vão perdendo validade – tenham sido eles alcançados ou não – e substituídos por outros, muitas vezes mais realistas.

Reconhecer limitações, sem ilusões, sejam elas culturais, de personalidade, temperamento, conhecimento, presença ou ausência de talento inato, não é tarefa simples para a maioria dos mortais. Querer crescer, subir degraus em todas as escalas, materiais ou espirituais, é saudável e vinculado aos nossos sonhos. Sonhar nos mantém vivos e atuantes contribuindo para uma vida com qualidade física e mental.

Encontrar o caminho ao longo da estrada de tantas bifurcações e cruzamentos, sem sinalização ostensiva, é um dos grandes desafios a serem enfrentados enquanto permanecemos por aqui. Como somos seres altamente influenciáveis por apelos externos, os encontros com nossos anseios mais profundos ficam, ou podem ficar, vulneráveis.

Certamente com exceções, os modismos, sempre presentes em qualquer época, direcionam o comportamento e objetivos a serem atingidos por muitos. Os apelos plurais não raro colidem com aqueles individuais, de foro intimo, enfraquecendo a capacidade de fazermos opções com imparcialidade.

O fato de desfrutarmos de livre arbítrio e, ousaria afirmar, intuição sempre presente, nos coloca em cima do fio da navalha existencial. Como criaturas racionais dotadas de lógica – estimulada pelo modo como somos criados e educados – assistimos o norte de nossas vidas sofrer interferências que ofuscam qualquer capacidade sensorial.

O constante questionamento e a falta de compreensão sobre respostas que não foram perguntadas colocam em cheque rumos perseguidos e não atingidos. O porque nem sempre merece o por que! Dogmas procuram se apresentar como luzes esclarecedoras, filosofias tentam explicar o que a razão tenta racionalizar, a percepção intuitiva resiste ao nexo que embasa a visão pseudo-realista da vida.

Para os que navegam em mar aberto, sem terra a vista ou instrumento de orientação, resta aguardar por aves marinhas não procelárias a resgatar a esperança de que a vida não termina ali. Surgindo do nada, de repente e sem explicação plausível, trazem alento, ampliam horizontes.

Ave, benditas aves!

“Vivemos todos sob o mesmo céu, mas ninguém tem o mesmo horizonte” (Konrad Adenauer)