Estamos realmente vivendo em um país patético. Depois de muito oba-oba em relação à constituição de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para julgar os “malfeitos” do  contraventor acusado de envolvimento com o crime organizado – o empresário conhecido como Carlinhos Cachoeira – a cortina foi descerrada.

Empreendedor dos mais hábeis, a julgar-se pela extensão de seus tentáculos envolvendo meio mundo político, entre senadores, deputados, governadores e afins,  escolheu a dedo o advogado para defendê-lo perante muitos daqueles que certamente tremem em suas bases ao imaginarem o que poderá vir a ser revelado.

E seu patrono é ninguém menos que o ex-ministro da Justiça do governo Lula, à época em que o citado senhor já atuava no comando de seus negócios. Cabe lembrar que o Ministério da Justiça tem por missão garantir e promover a cidadania, a justiça e a segurança pública, através de uma ação conjunta entre o Estado e a sociedade…

Ao mover-se para o lado contrário, ainda na vigência de um governo que é extensão do anterior, o patrono do contraventor não poderia ter sido sua melhor escolha. Além de seus reconhecidos méritos no conhecimento das leis é conhecedor, também, dos intestinos da instituição que esteve sob sua batuta. Conhecedor, ainda, dos políticos engajados na administração federal e membros do Congresso Nacional.  Ora, pois!

Douto nos assuntos que lhe trouxeram fama, sua versatilidade para atuar em segmentos distintos da justiça – bilateral no caso – causa estranheza aos cidadãos, leigos como eu, mas que ainda credulamente acreditam na justiça. Na justiça, não nos políticos. Mas ainda assim, como fica a ética?

Agora, diante desse quadro tragicômico da vida nacional, só nos resta parabenizar o senhor Carlos Augusto de Almeida Ramos, vulgo Cachoeira, protagonista desse episódio digno de estar presente em um livro ainda a ser escrito: “Contos das Carochinhas do Parlamento”. Como gestor de jogos do bicho, bingos e caça níqueis – atividades consideradas ilegais – conseguiu, pelo país afora, arregimentar no mundo político parceiros de peso e prestígio, ilibados… eis que representam a sociedade brasileira. Com tal capacidade de penetração, Cachoeira pode ser considerado um gênio dos negócios escusos, negócios articulados e protegidos por parceiros eleitos até para o Congresso Nacional.

Como cidadão, obrigado a votar para não ser punido, sinto-me aviltado como pessoa, incapaz de exercer qualquer influência em circos como esse montado em Brasília.

Minha esperança, no entanto, reside na expectativa de que a imprensa não comprometida possa se constituir em uma linha de frente isenta capaz de apresentar à sociedade brasileira a realidade e a verdade dos fatos que estão a exigir a punição exemplar dos culpados.