Lembranças são lembranças, sejam elas boas ou nem tanto. Existem as que marcam mais, deixando sulcos indeléveis, como aquelas que ficam guardadas nos recônditos de nossa memória, na alma.

Não são poucas as pessoas que nutrem um profundo afeto pelos animais quaisquer que sejam as espécies. Tenho a forte impressão, no entanto, que os cães gozam da preferência dos humanos. A afinidade entre os dois animais, um mais racional que o outro (às vezes, mas nem sempre…) é uma demonstração cabal de como ambos expressam seus sentimentos isentos de interesses mesquinhos compartilhando alegrias e tristezas autênticas nas boas e más horas.

Só quem já viveu a perda de um desses companheiros ou companheiras, depois de anos de convivência diária, pode entender o significado e tamanho da dor quando nos deixam. Nos últimos anos passei pela sofrida experiência por duas vezes. Quando da última – depois de meses de angústia – prometi a mim mesmo que aquela seria a última experiência canina a ser vivida.

Repousando próxima de uma árvore no quintal jaz Bianca. As memórias que permanecem, quando sentado na varanda assistindo ao vai-e-vem dos pássaros, são apenas as dos bons momentos que passamos juntos. Da correria atrás dos voadores sem jamais ter cometido algum ato de crueldade, travessura pura, à presença constante sem nada pedir em troca. Por anos a fio, sem qualquer contestação.

Mas os deuses não estão interessados em nossas preferências e escrevem seus roteiros conforme sua vontade. E assim, eis que me vejo desde o início da semana convivendo com um novo membro de quatro patas, já na terceira idade, e conhecido de muitos anos. Agregado de minha cunhada desde filhote chegou o momento de deixá-la por razões pessoais.

O destino do Nicholas, vulgo Nicky, esse seu nome, e por acordo tácito entre as irmãs, foi nossa casa. Após meses de espera para a “transferência”, mas sem qualquer entusiasmo de minha parte e pelas razões mencionadas nossa vida já começou a mudar.

Devo confessar que tenho sido cativado por aquele olhar que só pessoas apaixonadas e cães têm – com minhas excusas às primeiras pela comparação -, seus passos marcantes no piso da sala que não nos deixam sentir sós, pela quebra da mesmice do dia-a-dia.

Quero crer que estou rendido! Mais uma vez.

Mas a vida é assim mesmo. Só existe o bom por que existe o mal, o belo contrapondo o feio, o justo se antepondo ao injusto. Devo ser grato por poder usufruir de tudo que soma e entender que subtrair é abrir mão do que não é mais. Um privilegiado. Au! Au!