Acessando a internet ou abrindo qualquer revista especializada lá estão as novidades de hoje, que tornaram aquelas divulgadas ontem ultrapassadas. Novidades com forte apelo ao consumo, à extravagância que exalta a diferença para tornar as pessoas iguais, a estimular seus egos na eterna busca do que gostariam de ser – ou ter – desqualificando o que realmente são ou têm.
Vivendo na era do descartável, a velocidade dos acontecimentos supera nossa capacidade de discernir sobre o que é mais importante para uma vida equilibrada, com interferência em nosso julgamento e bom senso.  Não mais dispomos de tempo para nós mesmos, para nos encontrarmos com nossa realidade, de reconhecermos quem de fato somos. Colocados perante os semelhantes, nos apresentamos metamorfoseados pelo que é esperado de nós em termos de aparência, status, imagem projetada. 
Muitos passaram por etapas singelas de vida quando o pouco era mais que suficiente, os sonhos mais realizáveis, as ambições mais modestas. Ora direis, saudosismo puro; a vida agora é outra, outros são os tempos, é a modernidade. Verdade pura, também. O avanço tecnológico na área médica trouxe mais conforto às pessoas prolongando seu tempo de vida, mas atendendo a poucos com serviço público de qualidade. As telecomunicações facilitaram o contato virtual imediato, mas não a aproximação. O transporte aéreo tem nos levado – ainda que espremidos em poltronas apertadas – a velocidades subsônicas de um lado a outro do mundo. Os automóveis, com alta tecnologia embarcada, capazes de atingir até 200 km por hora, se arrastam pelas ruas de cidades carentes de infraestrutura viária deixando-nos em estado de estresse permanente. 
Os tempos são e serão sempre outros. Recordar é viver, já dizia o poeta. Assim, com uma ponta de saudosismo, sim, confesso que – entre tantas outras – não me importaria nem um pouco de poder continuar a contar com meu médico de sempre, que me conhecia; beber água direto da torneira sem sofrer complicações digestivas e bacteriológicas; pegar o bonde e ler um livro enquanto não chego ao meu destino (e rapidamente); assistir ao jogo do meu time debaixo de um sol sem buraco negro junto às torcidas que voltam para casa sem pancadaria.
Não creio ser exceção entre os que desejam uma vida com mais segurança, menos violência, mais harmonia entre as pessoas, mais tempo para desfrutar do tempo disponível, mais consciente de ser e bem menos de… ter.      
Mas é hora de dormir, trancar as portas com duas fechaduras, soltar o cachorro, colocar cadeados nas grades, ligar o alarme.
E sonhar com os anjos.