O mundo atravessa uma crise econômica profunda, milhões de pessoas desempregadas, países mergulhados em um buraco negro, jovens e aposentados enfrentando dificuldades financeiras de toda ordem. Ao mesmo tempo, jogadores profissionais de futebol ganham cifras incompatíveis com a realidade da maioria das populações. Transformados em máquinas de fazer dinheiro pelo talento – para si próprios, seus agentes, patrocinadores e clubes – criaram dois mundos. O real, deles, e o real, nosso.

O disparate é tamanho que nos surpreendemos quando medalhões da medicina com anos de estudo e especializações várias cobram por uma consulta R$ 500,00, ou até mais. Uma irrealidade para um país como o nosso com um sistema de saúde pecaminoso. Irrealidade também, o fato de medalhões da bola receberem várias vezes aquela quantia por terem ganho apenas um jogo. E enquanto isso, os educadores em nosso país são abandonados à própria sorte, sem qualquer reconhecimento e apoio para formar gerações.

Talvez por tudo isto o Brasil ocupe o desonroso quarto lugar no ranking latino americano da desigualdade social, atrás de Guatemala, Honduras e Colômbia. Como já definido por um intelectual: “muito para poucos e pouco para muitos”. Apesar da proclamada pujança – agora nem tanto – de nossa economia.

O marketing agressivo das indústrias, transformando em produto tudo que se possa imaginar, com impostas inovações a todo o momento vem levando as pessoas a se tornarem reféns de seus motivados desejos. Possam elas, ou não, arcar com os custos inerentes.

Mas aos meus olhos o que choca é o descaso, o conformismo com as distorções, a aceitação pacífica da desigualdade, a contribuição – nem um pouco gratuita – para a ostentação que confronta as necessidades básicas. Abra-se uma revista, acesse-se um portal na internet, lance-se um olhar ao redor, e o bombardeio de apelos consumistas impressiona. Estabelece-se um embate entre os que podem e os que anseiam sem poder. Abrem-se as trilhas para o estímulo à corrupção, envolvimento desde cedo com atos ilícitos geradores de riqueza fácil, adesão ao crime organizado.

A velocidade da informação sobre tudo que nos cerca, difícil de ser assimilada em sua essência pelo volume e pluralidade, nos faz perder a noção de valores intrínsecos ampliando o fosso da desigualdade, criando castas.

Estamos nos transformando em seres informatizados, comprando virtualmente, acessando facilmente a comunicação eletrônica, com pouco ou nenhum tempo para formar juízo. Em breve, quem sabe até, não mais lhe perguntarão quantos anos você tem, mas sim, quantos bytes você tem.